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Entre Tradições e Contradições

1 - São 35 anos a promover e a valorizar o património material e imaterial da freguesia da Camacha, do concelho de Santa Cruz e da Região Autónoma da Madeira.

Falamos do Festival Art’ Camacha, uma iniciativa em boa hora promovida pela Casa do Povo da Camacha com o apoio de diversas entidades públicas e privadas, e que celebra a identidade, a criatividade e as tradições da freguesia da Camacha, do concelho de Santa Cruz e da própria Região Autónoma da Madeira.

Concertos, espetáculos, exposições, oficinas, animação de rua e experiências gastronómicas criam um ambiente de convívio, partilha e descoberta, pois como diz e bem um amigo meu, “a tradição prende e a cultura abraça”, e esse acaba por ser o segredo do sucesso de um evento que constitui uma oportunidade única para conhecer a autenticidade desta terra, celebrar a riqueza cultural da Madeira e fortalecer os laços entre a comunidade e os seus visitantes.

Único, e a merecer cada vez mais e melhores apoios, que das entidades públicas, quer dos privados.

2 - São hoje assinados na Câmara Municipal de Santa Cruz os contratos programa no âmbito do apoio ao associativismo, pomposamente anunciados como o reconhecimento do município a “uma importante forma de desenvolvimento municipal e de organização social, enquanto instrumento no apoio a respostas de cariz educativo, social e desportivo”.

No total serão atribuídos cerca de 360 mil euros aos diversos projetos aprovados, em áreas como educação, social, desporto, cultura, religião, ambiente e causa animal, o que representa 0,67% do orçamento de 54 milhões de euros aprovado pela autarquia para 2026.

A título de curiosidade, deixamos alguma notas:

- em média, os municípios portugueses dedicam entre 2,5% e 5% do seu orçamento às políticas de apoio ao associativismo.

- Nas comemorações alusivas ao Natal, entre cenários, decorações, palcos e animação, a verba gasta pela Câmara Municipal de Santa Cruz ultrapassou esse valor.

- Nos últimos dez anos (e os números são da câmara) o Município de Santa Cruz investiu cerca de dois milhões de euros neste tipo de apoio. Nesses mesmos dez anos, a soma dos orçamentos camarários ultrapassou os 400 milhões de euros. Ou seja: o apoio ao associativismo representou menos de 0,5% do orçamento camarário.

Afinal, para quem tanto proclama a importância do associativismo, os números mostram uma realidade bem diferente: o reconhecimento é muito maior nos discursos do que nas contas.

3 - Na reunião desta terça-feira da Assembleia Municipal de Santa Cruz a oposição, no âmbito dos direitos e deveres que lhes compete, pediu esclarecimentos sobre o processo judicial em curso e que levou à suspensão de três funcionárias do município e à constituição da presidente, Élia Ascensão, como arguida.

Apesar das muitas perguntas, as respostas foram poucas e vagas, e como de costume lá veio no final o comunicado da ordem, a acusar a oposição de querer tirar “aproveitamento político” de um processo judicial ainda em curso e no qual deve ser respeitada a presunção da inocência.

Num partido sempre pronto a exercer (e bem!) os seus direitos enquanto oposição fiscalizadora, seja na Assembleia Regional, seja nas diversas autarquias onde tem assento, falar em aproveitamento político numa circunstância destas acaba por ser uma gritante incoerência.

Mas no fundo é mais do mesmo, e exemplos não faltam: No Funchal (onde é oposição) o JPP quer mais cadeias de hipermercados enquanto que em Santa Cruz (onde é poder) nem um hipermercado consegue ter; em Câmara de Lobos (onde é oposição) critica os gastos na Festa da Espada Preta, aplaudindo o investimento semelhante feito no Caniço (onde é poder) na Festa Gastronómica.

Pelos vistos, a tão apregoada coerência não é fazer sempre o mesmo; é conseguir justificar sempre o contrário.