DNOTICIAS.PT
Artigos

Servir, não servir-se

Saudades tuas, meu Pai. Meu Mestre. Meu Professor. Obrigado por me ensinares que o poder só vale a pena quando é usado para servir

Este mês faz dois anos que o meu Pai partiu.

Deixou-me, para além da saudade, ensinamentos que nunca esquecerei. Ensinou-me, juntamente com a minha Mãe, as bases daquilo que significa trabalhar para a população e exercer funções autárquicas.

Entre tantos ensinamentos, há duas frases que ficaram particularmente gravadas em mim.

A primeira: “Depois das eleições, o Presidente é Presidente de todos os porto-santenses, até porque nunca saberá quem efetivamente votou em si… e as surpresas são tantas!”

Uma enorme lição sobre democracia, responsabilidade e humildade.

Uma eleição termina quando são conhecidos os resultados. A partir daí, quem é eleito deixa de representar apenas quem nele confiou. Passa a ter a responsabilidade de representar todos.

Os que votaram.

Os que não votaram.

Os que apoiam.

Os que discordam.

Os que criticam.

Todos.

A segunda frase é igualmente direta: “Nunca ceder à tentação dos favores, pois quem tem rabos de palha perde o poder de decidir.”

Hoje, talvez compreenda ainda melhor a profundidade destas palavras.

Quem exerce funções públicas tem de preservar a sua independência. Não pode ficar condicionado por favores, interesses ou compromissos pessoais. Porque, quando alguém passa a dever alguma coisa a alguém, perde liberdade para decidir.

E quem perde a liberdade de decidir perde uma parte essencial daquilo que lhe foi confiado.

A causa pública exige exatamente o contrário, independência, coragem, transparência e trabalho.

É por isso que também cabe aos cidadãos observar e distinguir quem efetivamente veio para servir e quem veio para se servir.

Quem está presente, trabalha, assume responsabilidades e apresenta resultados.

Mas também quem recebe para desempenhar uma função e pouco ou nada faz. Quem está ausente quando deveria estar presente. Quem foge às responsabilidades, mas aparece sempre para criticar o trabalho dos outros.

Porque há uma coisa que não podemos normalizar, fazer da política uma profissão sem responsabilidade e da crítica uma profissão sem trabalho.

E há ainda uma forma de servir-se da política que considero particularmente grave, utilizá-la para criar oportunidades para os seus, enquanto outros ficam na fila, à espera de uma oportunidade que nunca chega.

Quando as pessoas começam a sentir que o mérito vale menos do que a proximidade, que conhecer alguém vale mais do que trabalhar e que as oportunidades não são distribuídas com justiça, instala-se a revolta.

Depois vem a frustração.

E, pior ainda, a descrença.

Começa a acreditar-se que há uns que têm portas abertas e outros que nem sequer conseguem chegar à porta.

É assim que se destrói a confiança.

E a confiança, uma vez perdida, não se recupera com discursos.

Recupera-se com comportamento.

Com trabalho.

Com decisões justas.

Com transparência.

Com a coragem de dizer não, mesmo quando dizer sim seria mais conveniente.

Porque servir a causa pública também é saber dizer não aos amigos quando aquilo que está em causa é o interesse de todos.

O Sol nasce para todos da mesma forma, todos os dias.

A nossa obrigação é garantir que também as oportunidades sejam dadas com justiça.

Não podemos exigir às pessoas que acreditem nas instituições se lhes dermos razões para acreditar que as regras não são iguais para todos.

Criticar é fácil.

Fazer é mais difícil.

Apontar erros é fácil.

Assumir responsabilidades é mais difícil.

E servir é muito mais difícil do que servir-se.

Porque servir exige trabalho quando ninguém está a olhar.

Exige responsabilidade quando as decisões são difíceis.

Exige coragem quando dizer não tem custos.

E exige humildade para perceber que nenhum cargo nos torna melhores do que aqueles que representamos.

A causa pública tem uma missão muito simples, servir, e não servir-se.

O meu Pai ensinou-me que os cargos passam, as eleições passam e as pessoas passam.

O que fica é aquilo que fizemos com a confiança que nos foi entregue.

Dois anos depois da sua partida, continuo a ouvir as suas palavras.

Continuo a lembrar os seus ensinamentos.

E continuo a acreditar que, na vida pública, podemos escolher muitos caminhos.

Mas há um princípio que nunca devemos abandonar, estamos aqui para servir as pessoas. Nunca para nos servirmos delas.

Saudades tuas, meu Pai.

Meu Mestre.

Meu Professor.

Obrigado por me ensinares que o poder só vale a pena quando é usado para servir.