Mulheres que a História escreveu em letra pequena
Devolver espaço a estas mulheres não diminui os homens. Torna apenas a narrativa mais inteira e ajuda-nos a compreender melhor de onde vimos
Agosto convida-nos a abrandar. Os dias alongam-se, as agendas perdem urgência e cedem lugar ao descanso, nas suas mais variadas formas e, para os apreciadores, à leitura.
Habitualmente, escrevo nestas páginas sobre a Macaronésia, a cooperação, Cabo Verde e a solidariedade, num registo mais institucional. Mas o verão tem igualmente este poder: abranda-nos o olhar, devolve-nos outra calma e traz ao de cima uma escrita mais leve. É nesse espírito que, este mês, proponho uma conversa diferente.
Foi ao procurar uma biografia de Margaret Thatcher que percebi por onde começar. Sem o planear, as últimas leituras foram sobre mulheres que viveram junto de homens que ocuparam quase toda a narrativa histórica e que, apesar da sua influência, raramente são lembradas pelo próprio nome. Estes livros ofereceram-me outra forma de olhar para a História: não apenas a partir do centro, mas também das margens.
A primeira dessas leituras foi As Descobertas da Madame Cristóvão Colombo, de Paula DiPerna. O romance devolve a voz a Filipa Moniz Perestrelo, a portuguesa com quem Colombo casou e que a História quase apagou. Filha de Bartolomeu Perestrelo, capitão-donatário do Porto Santo, cresceu numa família ligada à expansão atlântica. Através dela e da mãe, Isabel Moniz, Colombo contactou navegadores e teve acesso, no arquipélago, a conhecimentos sobre as rotas do Atlântico. A tradição associa aos Perestrelo cartas náuticas e diários de bordo. Quanto da viagem começou, antes das caravelas, nos mapas e saberes que Filipa colocou ao seu alcance?
Seguiu-se Sissi - A verdadeira história de Elizabeth, Imperatriz da Áustria e rainha da Hungria, de Ana Polo Alonso. Conhecemo-la pela imagem romântica construída à sua volta. Para lá da beleza, da melancolia e da tragédia, encontramos uma mulher de vontade própria e influência política, sobretudo na aproximação à Hungria. Por vezes, a História conserva o nome de uma mulher, mas não a sua verdadeira dimensão.
Depois veio a trilogia Josefina Bonaparte, de Sandra Gulland. Josefina foi anfitriã, diplomata e uma mulher de rara inteligência social. Criou relações, leu ambientes e ajudou a dar forma à representação do poder. Recordá-la apenas como a paixão de Napoleão ou como a mulher que não lhe deu um herdeiro é pouco para uma vida inteira.
Margaret Thatcher pertence a outra categoria. Entrou na História pelo próprio nome, pelas decisões e convicções que assumiu. Pode ser admirada ou contestada, mas merece ser lida para além da simpatia ou da rejeição. Quero lê-la para compreender, não para concordar com tudo. Talvez seja essa uma das virtudes da leitura: aproximar-nos de quem pensa de forma diferente.
Percebi então que estas leituras “falavam” umas com as outras. Umas mulheres deixaram marcas visíveis; outras ficaram escondidas atrás do nome dos maridos.
Devolver espaço a estas mulheres não diminui os homens. Torna apenas a narrativa mais inteira e ajuda-nos a compreender melhor de onde vimos.
Boas férias e boas leituras!