Quando os alunos se levantam para aplaudir os colegas
Tenho sentido, nas últimas semanas, uma emoção muito particular, daquelas que anualmente costumam aparecer no fim de um ano letivo e que penso que já todos sentimos. Mais do que a sensação de encerramento de um ciclo, sinto um sentimento de celebração por vermos crianças e jovens crescerem diante de nós. Esse crescimento resulta de um trabalho feito semana após semana entre professores e alunos, mas também entre escola e famílias, num triângulo essencial para a educação.
No caso do Conservatório, esta sensação torna-se ainda mais forte quando falamos dos alunos finalistas. Muitos terminam agora percursos de oito ou mais anos na nossa instituição. Alguns entraram ainda crianças, muitas vezes inseguros, e foram atravessando connosco fases muito diferentes da vida. Chegam agora ao fim deste ciclo com uma maturidade artística e humana que nem sempre é fácil medir em classificações. Tenho procurado transmitir-lhes que serão, muitos deles, os líderes de amanhã: líderes de projetos, de equipas ou mesmo de instituições. Por isso, devem aproveitar este tempo no Conservatório para se prepararem o melhor possível. E a verdade é que a esmagadora maioria o faz com grande seriedade.
Assim, nestas últimas semanas, tenho assistido a vários momentos de encerramento de atividades do Conservatório: concertos da Orquestra de Sopros, da Orquestrazinha, audições, provas finais e apresentações dos alunos finalistas dos cursos profissionais. As Provas de Aptidão Profissional, em particular, têm uma exigência própria. São o culminar de três anos de trabalho intenso, num regime em que os alunos têm de responder a uma carga horária muito pesada, preparando-se simultaneamente para o mercado de trabalho e para o acesso às melhores escolas e universidades, em Portugal e no estrangeiro. Este ano, voltamos a ter, com muito orgulho, alunos nossos a entrar em universidades de prestígio em Portugal e na Europa, confirmando a vocação cosmopolita e europeia do ensino artístico desenvolvido no Conservatório.
Mas queria partilhar que aquilo que mais me ficou destes dias não foi apenas a qualidade artística das apresentações, que naturalmente me alegra, mas ver os alunos do Conservatório a apoiarem-se uns aos outros de forma tão intensa e genuína. Todos os anos, nas provas finais, os alunos assistem aos recitais dos colegas, acompanhando com atenção e concentram-se verdadeiramente no trabalho dos finalistas. Conseguem, estranhe-se, ficar longos períodos sem pegar no telemóvel. E, no fim, levantam-se para aplaudir os colegas com uma energia juvenil, pura e vibrante, de quem reconhece o esforço do outro.
Num tempo em que tanto se fala de competição, rankings e resultados, um aluno que se levanta entusiasticamente para aplaudir um colega está a praticar um princípio simples e central para a sociedade: o sucesso do outro não nos diminui. Pelo contrário, engrandece o grupo.
Concerto de encerramento no próximo dia 15 de julho
No meio de tantas atividades de encerramento, queria destacar o nosso Concerto de Encerramento do Ano Letivo, que se realiza no próximo dia 15 de julho, às 21h00, no Parque de Santa Catarina. Será um momento especial, com a Orquestra Sinfónica do Conservatório, sob direção do professor e maestro Francisco Loreto, e com a participação dos coros do ensino artístico especializado, preparados pelos professores Nélio Martins, Ana Rosa Santos e Nélio Silva. Queremos que seja uma noite aberta à cidade e à comunidade. Gostava muito que enchêssemos o Parque de Santa Catarina, para assistir a um concerto único, de reconhecimento público do trabalho de uma comunidade educativa inteira, constituída por alunos, professores, famílias, equipas técnicas, funcionários e parceiros institucionais. Um ano letivo deve terminar desta maneira, com a comunidade junta, a escutar e a aplaudir o concerto e tudo o que acontece antes de se chegar a esse momento: o trabalho, a disciplina, a persistência e o apoio dado aos nossos jovens ao longo de todo o ano.
Valores
Nesta sequência, queria terminar com uma última nota à margem: uma breve reflexão motivada também pela exposição itinerante “Move-te por Valores”, iniciativa associada ao IPDJ, que envolveu as Escolas Embaixadoras do Parlamento Europeu e que, na Região Autónoma da Madeira, foi coordenada pela Direção Regional de Educação e pela Direção Regional de Desporto. O encerramento decorreu no Conservatório, num evento coordenado pela professora Alexandrina Alves, com a colaboração do professor João Francisco Olim.
Durante anos, talvez tenhamos tomado como garantido que alguns valores estavam suficientemente consolidados na nossa vida coletiva: o respeito pelo outro, a liberdade, o respeito pela verdade ou a capacidade de viver com a diferença. Os últimos anos mostraram-nos que nada disso está garantido. Vimos, demasiadas vezes, o respeito ser substituído pela agressividade, a verdade tornar-se relativa, a diferença ser tratada como ameaça e o diálogo perder espaço para a imposição.
Também por isso, projetos como a exposição Move-te por Valores têm uma importância que vai muito além do momento escolar. A escola não existe apenas para transmitir conhecimentos técnicos, mas também para formar pessoas capazes de escutar, respeitar, cooperar e reconhecer o lugar do outro.
Talvez por isso tenha sentido um orgulho especial ao ver os nossos alunos levantarem-se para aplaudir os colegas daquele modo tão genuíno. Porque ali, naquele gesto simples, estava o reconhecimento do esforço e a alegria pelo mérito do outro. Em suma, estava a ideia de comunidade.