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Os professores evitaram o descalabro

O recente processo de desmaterialização dos exames nacionais prometia ser um marco relevante na modernização tecnológica de um setor tão decisivo da nossa educação. Entre outros aspetos importantes, ao nível da classificação dos exames, libertar os docentes do transporte físico de envelopes cheios de provas representa um avanço em segurança e logística. Da mesma forma, distribuir a classificação por itens, em vez de exigir que um único professor classifique testes inteiros, constitui também, na minha opinião, um progresso inegável.

Não obstante, a falta de planeamento, o amadorismo, a inabilidade de quem nos governa e a incompetência política estragaram quase tudo. A pressa política atropelou a prudência técnica. Ignorando as falhas sinalizadas na fase experimental do ano anterior, avançou-se sem garantias de sucesso.

O resultado foi uma plataforma instável, que bloqueou diversas vezes e foi entregando os itens a conta-gotas. Surgiram episódios preocupantes, como provas com classificações duplicadas, páginas trocadas, caligrafias distintas de uma página para a outra e partes de exames perdidas no armazém onde fizeram as digitalizações.

No âmbito mais político, foi revoltante e indecente a tentativa do Primeiro-Ministro de desviar o foco das suas falhas de planeamento, ao sugerir que os constrangimentos se deveriam à resistência dos docentes à mudança. O Ministro da Educação — que, no início, também procurou atirar as culpas para cima dos professores, tendo, inclusive, criticado os pais por já terem marcado as suas férias — recuou nas acusações e pediu desculpa ao perceber que só os professores o poderiam salvar desta trapalhada.

Apesar de exaustos pelo trabalho de classificação dos exames, com a incerteza diária sobre a quantidade de itens a corrigir e sob o peso do esgotamento acumulado de todo este processo, os professores nunca abdicaram das suas responsabilidades, sempre em prol dos alunos.

Senhor Primeiro-Ministro, não seja injusto: os docentes nunca recusaram a mudança. Ao longo dos anos, adaptaram-se a todos os novos paradigmas educativos e a tudo o que foi implementado pelos diversos ministros da Educação que foram passando pelo Ministério. De uma forma muito geral, foram respondendo com competência à introdução das novas tecnologias nas salas de aula, à digitalização do ensino, à introdução dos tablets, aos novos modelos de avaliação e de classificação. Passaram das pedagogias por objetivos para a abordagem por competências; depois foram as Metas Curriculares, de seguida o Projeto de Autonomia e Flexibilidade Curricular, as Aprendizagens Essenciais e o Perfil dos Alunos, e agora estamos no paradigma da Escola Inclusiva.

Em cada uma destas reformas, muitas vezes impostas à pressa, os professores deram o seu melhor para proteger os alunos, tal como fizeram no período crítico da pandemia.

Os professores não recusam a inovação, exigem apenas competência e respeito. Na Educação, onde se definem percursos de vida de milhares de jovens, não há espaço para o improviso. Mudar o sistema é legítimo e necessário, mas exige planeamento rigoroso, testes reais e estabilidade. Os decisores políticos devem assumir as suas responsabilidades, valorizando quem, mais uma vez, salvou o sistema e esteve ao lado dos estudantes.