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Crónicas

Sem subsídios somos os mais pobres

Marítimo e Nacional perderam força. Não é possível SAD forte com Clube em maioria

Não vai longe o tempo que o Marítimo tinha um forte estatuto no futebol português, inclusive com vitória e título português, e o Nacional alcançava as melhores classificações madeirenses na liga portuguesa. Momentos que não coincidiram no tempo mas que deram ao país uma ideia de região desportivamente competitiva com dois clubes de relevância nacional.

Chegámos aos três clubes, em simultâneo, na primeira Liga o que até foi comentado pelo “ciumento” primeiro ministro algarvio Cavaco Silva.

Mas o futebol mudou. Em trinta anos passámos da pujança invejada para uma precária sobrevivência no escalão de topo nacional.

É tudo cheio de história rica mas de difícil presente.

Vamos excluir deste raciocínio os casos dos “grandes” Benfica, Sporting e Porto pois destoam da restante maralha de clubes dispersos pelo país. Esses três andam em paralelo com os de Madrid e Barcelona que, por sua vez, destoam dos “grandes” ingleses e franceses.

O futebol português de clubes está, neste preciso momento, circunscrito a vinte e dois clubes que lutam pelo mesmo espaço: 1.ª Liga. Nada impede, e até não surpreenderá, que um qualquer clube, hoje não referenciado, venha a ser palco de aposta financeira e se intrometa, rapidamente, no topo nacional. Neste caso estão possivelmente vários de segunda Liga e até alguns da terceira. É questão de oportunidade.

Com um Braga destacado pelo sucesso da estratégia do seu clube, entre inteligência do seu presidente, apoio camarário e acerto do investimento exterior, temos mais de três dezenas de clubes cuja intervenção financeira de investidores e/ou accionistas alterou o seu estatuto competitivo. O exemplo do Torrense é paradigmático.

Na 1.ª Liga, apenas a SAD do Nacional não tem qualquer acionista sem ser o Clube: o CDN tem 39%; o CDN SGPS, SA tem 60%; e o CDN Merchandising, Lda tem 1%. Ou seja, tudo do Clube Desportivo Nacional. O capital não é aberto pelo que um sócio não se pode tornar seu acionista, subscrevendo todo ou parte do seu capital. As demais sociedades desportivas participantes na 1.ª Liga de futebol têm desde dezenas a milhares de accionistas. O seu capital social está realizado havendo muitas vezes aumentos de capital para os fins deliberados pela sociedade.

Estão neste caso clubes como o Benfica, o Académico de Viseu e o Amarante.

Todos eles têm um presidente de Clube e um presidente de SAD, eleitos em separado, que pode coincidir e até ser o mesmo. O presidente do Clube é eleito pela universalidade dos sócios, enquanto o presidente da SAD é eleito pelos accionistas, em Assembleia Geral da sociedade.

A SAD do Marítimo é 91% do Clube, 2% do Governo Regional (RAM) e 7% de centenas de pequenos acionistas, individuais e empresas.

Há vinte anos, Nacional e Marítimo disputavam lugares europeus. Jogavam taco a taco com Braga e Guimarães. Hoje não conseguem se aproximar do Gil Vicente, Famalicão, Estoril, Alverca, Moreirense e Arouca. Isso deixou de acontecer ficando a jogar pelo sobe e desce, entre os últimos da 1.ª Liga e os primeiros da 2.ª. Até ver. Pode piorar.

Os seus orçamentos continuam estáveis mas os adversários tornaram-se mais competitivos e fortes.

Claro é que, não fora o apoio público do Governo Regional, já teriam caído nos fundos da Liga secundária, com riscos de ir para a terceira ou para o nível regional.

O União, com os mesmos subsídios, não resistiu e desabou. Não foi só falta de boa gestão.

Temo os regimes de um homem só. O Marítimo já se safou. O Nacional mantém. Não que não possam ser bons gestores e garantes de bons momentos. O Marítimo e o Nacional viveram alegrias inesquecíveis, com muito sofrimento à mistura. Rui Alves deu aos nacionalistas o que eles nunca ousaram pedir ou sonhar. E, continuo a escrever que a sua maior qualidade é ter mantido solventes tanto o Clube como a SAD. Depois de tanta vitória. Não tem sido normal no futebol de alta competição. Belenenses, Boavista, Salgueiros e Setúbal desceram aos infernos.

Mas o absolutismo é regime que pode dar alegrias mas não tem futuro.

Rui Alves já vai avisando para o que vem aí: dificuldades financeiras com as consequentes deficiências competitivas. E eu não quero isso. Tem de haver um plano ambicioso que faça encontrar um novo rumo de sucesso. Temos de conversar. Sugerir. Procurar saídas em conjunto, porque o Clube e a SAD são de todos nós. E o tempo é outro.

Não podemos ouvir o líder prever severas dificuldades e não provocar uma Assembleia Geral esclarecedora. Sem medos, já que quem tem de nos responder são nossos eleitos e assalariados.

Preocupa não haver uma única ideia conhecida sobre o futuro do Nacional. Há várias saídas possíveis com interesse para o Clube. O jogo deve ser aberto e debatido. É preciso ter cautela nas propostas “irrecusáveis” que possam chegar. As quais depois não se concretizam. A primeira não passou de folclore. Ninguém dos sócios falou com o investidor/parceiro. Não se sabe das suas intenções, propostas e objectivos. Nem conhecemos os seus rostos. Não pode ser rejeitada só por não ser do agrado do poder reinante. Não pode morrer sem os sócios a recusarem. Já foi uma vez assim. Pode muito bem se repetir. Há mais gente no Clube que sabe negociar. Com experiência suficiente.

Rui Alves já não afasta a hipótese de continuar na liderança do Nacional. Mesmo reformado. Ao contrário das eleições anteriores, quando sempre criava alguma excitação com a dúvida da sua continuidade, desta vez aceita ficar. Não é mau, se estiver motivado e junto do Clube.

Antigamente era questão de ser ele ou não o líder. Fazia toda a diferença. Acreditávamos que o seu talento como gestor, associado a um orçamento generoso, seria suficiente para bons resultados e boa classificação.

Somente, agora, não chega a habilidade e competência de gestão de Rui Alves. É preciso reforço financeiro que o Governo Regional não dá, os patrocinadores não cobrem e os sócios pagantes não podem suportar.

O actual isolamento da SAD leva à agonia no próximo futuro. Como Rui Alves vem avisando. O que é certo é estarmos a um ano das eleições e os riscos serem muito grandes para manter-se na 1.ª Liga e encontrar estatuto competitivo na primeira metade do campeonato.

O que está em causa não é saber quem é o presidente. É ter uma SAD financeiramente capaz de ser desportivamente bem sucedida e economicamente sustentável. O presidente deverá ser quem investe com maioria.

São precisos parceiros. Enquanto valemos alguma coisa na 1.ª Liga. Antes de morrermos ou cairmos em agonia.

O Nacional mais o capital investido, na proporção de cada um, saberão decidir a gestão da SAD. A maioria liderará, enquanto a minoria acompanhará a vida quotidiana da SAD, os seus investimentos, opções e rumos. Com instrumentos de gestão e transparência modernos, responsáveis e adequados à moderna gestão.

É impossível pensar que seja possível uma SAD forte com o Clube em posição maioritária. O Clube não tem dinheiro para isso. E manda quem arrisca capital.

A entrada de capital é certamente acompanhada por desejo de conter riscos e decidir na gestão. Como não deixará de fazer administração saudável que mantenha um projecto societário sustentável, duradouro e lucrativo.

Tendo em conta que o futebol de espetáculo mudou. E muito.

A diferença no poder financeiro dos clubes não está nas assistências aos jogos. O Farense tem tantos espectadores como o Marítimo e jogou o play-off de descida à 3.ª Liga. O Benfica tem mais gente no estádio que o Manchester City. Está cheio de exemplos. Estádios cheios de adeptos mas fraco retorno financeiro.

Se fosse por aí o Nacional era clube de muito pouca expressão. O subsídio público do governo regional compensa esse défice de adeptos no estádio. E não parece beneficiar o maior número nos Barreiros. É bom, dá apoio, mas não é decisivo.

Nos clubes pequenos esse diferencial de gente no estádio dá estatuto ao clube mas não aumenta a receita orçamental. É residual. É mais importante o subsídio.

Quantos mais bilhetes precisava o Nacional vender para igualar a receita do subsídio público em 25/26: dois milhões e duzentos mil euros? Aos preços correntes mais de meio milhão de espectadores. Um estádio de 25 mil lugares sempre cheio.

O subsídio é assim crucial. Disfarça fragilidades de outra forma impossíveis de superar. Só que não sei se todos os partidos, se e quando no governo, manterão este apoio indispensável. E sem ele é a morte certa!

A não ser que as SAD’s estejam blindadas por um quadro acionista financeiramente robusto que tire do futebol os proveitos que são obrigatórios em qualquer actividade empresarial.

As empresas têm de ser lucrativas. As SAD’s em Portugal têm de ter proveitos se não ninguém as quer. Há que investir, explorar o negócio. Como qualquer outro. Sem medo de quem manda. Porque quem mandar gosta certamente da SAD como eu gosto do CLUBE.

Conto um exemplo: o Luís Esteves saiu do Nacional para o Gil Vicente a custo zero. Jogou um ano e foi transferido por seis milhões de euros para o México. O Nacional nunca fez um negócio destes. Só o Chucho Ramirez pode ser parecido. Se acontecer.

Federação de Futebol da Madeira

Lembram-se quando eu propunha que a Madeira se tornasse numa Federação de Futebol separada da de Portugal? Talvez os mais velhos se recordem.

O curioso é que os Países Baixos e o Curaçao são, como em Portugal, o Continente e a Madeira. Mais ou menos autonomia, são casos iguais.

O Reino dos Países Baixos é constituído pelos Países Baixos na Europa e o Curaçao, Aruba e Sint Maarten nas Caraíbas. Cada um dos quatro tem a sua seleção de futebol. A família real, igualmente soberanos nos quatro territórios, apoia as suas várias seleções, duas delas a participarem neste campeonato mundial de futebol. São soberanos de ambos os territórios. O Curaçao não é, assim, um estado soberano. Faz parte do Reino dos Países Baixos. O Curaçao fez-se membro da FIFA e como tal tem a sua seleção de futebol. Não aconteceu jogarem um contra o outro. Estão ambos eliminados.

O Reino Unido também não tem seleção de futebol. A Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte não são países soberanos e têm as suas seleções. Há cerca de quarenta membros da FIFA que não são países independentes, são autonomias.

A FIFA entretanto bloqueou a criação de federações a partir de autonomias. Agora, só se estiver a caminha da independência.

Neste mundial temos 48 seleções que são de 46 países. Dois países têm, cada um, duas seleções: Reino Unido e Reino dos Países Baixos.