Tempos alucinantes
Vivemos tempos alucinantes. Quando damos por isso, andamos a correr para apanhar o caminho da nossa vida. Sim, porque tudo o que acontece à nossa volta influencia, direta ou indiretamente, o que andamos por cá a fazer.
Eu não consigo entender como é que pessoas que têm responsabilidade na vida social conseguem, num dia em que uma tragédia se abateu num país como a Venezuela, que tanto nos diz, organizar grandes eventos. Ainda me custa mais a entender os milhares de pessoas que vão beber, dançar sem sequer saber se há familiares seus debaixo dos escombros da tragédia. Há artistas que desiludem quando aceitam atuar numa situação destas. Vão dizer que eu sou moralista e antiquada. Até posso ser, mas enquanto decorre tanta desgraça neste mundo, é difícil ter disposição para grandes divertimentos que quase ofendem mortos e vivos.
Veja-se as grandes mobilizações que o futebol impulsiona. Neste caso conseguem lembrar-se de quem já partiu e até serem solidários com causas sociais importantes. Claro que se divertem e exercem o seu papel de adeptos, de um ou outro clube, mas é bonito de ver quando a solidariedade está presente. O problema do futebol são os “lobbies” que continuam atrás dos grandes que esmagam qualquer pretensão dos restantes. Neste mundial têm aparecido algumas belas surpresas, mas não tenhamos ilusões: quando as fases apertarem, só alguns é que passam e os outros foram importantes para enfeitar. Só espero que esse não seja o caso do nosso país... Uma coisa que me faz confusão é o gasto nas deslocações e nos bilhetes de entradas nos jogos que custam balúrdios. Mas o povo adere e diverte-se durante uns dias, se calhar ficando endividado para o resto do ano, sem contestar.
Se falo nestes dois contrastes, neste dia da Região, é porque decidi que hoje não falo de autonomia. Tenho falado e escrito muito sobre essa matéria e o resultado são orelhas moucas de quem deveria se preocupar com o verdadeiro Estado da Região, que apresenta dados tristes que têm de ser analisados com olhos de ver. Não devemos aceitar os discursos fáceis de que está tudo bem, que somos os melhores em tudo e até mais bonitos que o resto do país.
Os títulos de beleza que são feitos à nossa Região só servem para enganar quem quiser, porque quem tem olhos para ver, já começa a ficar assustado, e preocupado, com o cimento e o betão um pouco por toda a Região, a falta de habitação que começa a ser dramática e as derrocadas que de vez em quando nos vêm recordar que não podemos abusar dos nossos recursos naturais e que devemos respeitar a natureza, sem afrontas como os teleféricos ou campos de golfe em locais que deviam ser para lazer da população e não para deleite de ricos e estrangeiros.
Neste dia dedicado à Região, é bom recordar que, na nossa qualidade de ilhéus, e como tal insulares, devíamos ser respeitados pela República, que tem um governo da mesma tonalidade do Governo Regional, e que as nossas aspirações de podermos viajar pagando só a nossa parte pelo preço da viagem deveria ser uma questão de honra, assumida por todos os partidos presentes no Parlamento Nacional, que deveriam impor ao governo esse desiderato. Não é só fazer uma sessão sobre a autonomia que nos deve contentar. Queremos atos concretos e não apenas flores na lapela.