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Vulnerabilidades da RAM a Eventos Extremos — Estamos Preparados para o Próximo?

Perante o risco, a prevenção, a capacitação e a cooperação continuam a ser as respostas mais racionais e eficazes.

A Região Madeira da Ordem dos Engenheiros promoveu, no passado mês de maio, uma reflexão pública sobre a vulnerabilidade da Região Autónoma da Madeira a eventos extremos, no âmbito do ciclo de conferências “Conversas com a Sociedade 2025-2028”. Estiveram presentes especialistas regionais, nacionais e internacionais de áreas relacionadas com aluviões e incêndios florestais. As conclusões desse debate merecem ser tornadas públicas, porque dizem respeito à segurança das populações, à proteção do território e à capacidade de antecipar riscos que já não podem ser tratados como exceção.

A Madeira conhece bem o impacto de incêndios, aluviões, deslizamentos e episódios de precipitação intensa. A pergunta já não é saber se ocorrerão novos eventos extremos, mas sim se estaremos suficientemente preparados para reduzir/minimizar os seus efeitos/impactos. E a resposta, apesar dos progressos alcançados, continua a exigir prudência.

É justo reconhecer que a Região dispõe hoje de melhores meios, mais conhecimento técnico e maior capacidade de resposta do que no passado. Mas persistem fragilidades estruturais que exigem prudência, continuidade nas políticas públicas e uma visão de longo prazo.

Nos incêndios florestais, a atuação preventiva continua a ser mais eficaz do que a reação. Isso implica gestão ativa da biomassa, limpeza regular de terrenos, manutenção de faixas de proteção e resposta persistente ao abandono agrícola e à acumulação de combustível florestal. Exige, igualmente, ordenamento rigoroso, fiscalização, gestão florestal continuada e integração efetiva do conhecimento técnico nas políticas públicas.

A geografia acidentada da Madeira intensifica cheias rápidas, aluviões e movimentos de vertente quando a precipitação é intensa e persistente. Preparar o território significa, por isso, investir de forma criteriosa, identificar pontos críticos, proteger infraestruturas vulneráveis e garantir que a recuperação, quando necessária, não se limita a repor o que existia, mas incorpora lições e aumenta a robustez das soluções adotadas.

Nas aluviões e noutros fenómenos extremos, o investimento realizado desde 2010 reforçou a capacidade de proteção, mas não eliminou áreas sensíveis nem corrigiu todas as pressões urbanísticas que agravam a exposição ao risco. No debate, foi assinalada a existência de situações de elevada vulnerabilidade, designadamente a deposição de materiais de escombreira ao longo das margens de ribeiras, sem estruturas adequadas de contenção e a jusante de açudes de retenção de carga sólida. Esta situação deve ser corrigida, dado o potencial de arrastamento e obstrução das linhas de água a jusante, precisamente em zonas onde se concentram populações e atividade económica, incluindo na cidade do Funchal.

Há ainda uma dimensão frequentemente subestimada: a cultura de risco. Uma comunidade mais segura depende de cidadãos capazes de interpretar avisos e adotar comportamentos de autoproteção, mas também de políticas consistentes e de articulação eficaz entre entidades regionais. Importa, por isso, melhorar os sistemas de alerta precoce, reforçar a literacia climática e assegurar uma comunicação clara e atempada. Antecipar, preparar e atuar têm de fazer parte da rotina de um território cada vez mais exposto.

A principal conclusão é simples: os eventos meteorológicos extremos são inevitáveis, mas a vulnerabilidade pode ser reduzida. Para isso, é necessário dar continuidade ao trabalho de adaptação, reforçando a capacitação, a responsabilidade e a cooperação entre entidades públicas, especialistas e cidadãos. A engenharia, enquanto disciplina transversal ao planeamento, ao ordenamento, à construção, à monitorização e à proteção, assume um papel indispensável neste processo. Em matéria de risco, agir preventivamente continua a ser a forma mais eficaz, mais racional e mais responsável de proteger a Região Autónoma da Madeira e a sua população.