Implicativa
Há um mundo que nem sempre sabe o que fazer com pessoas autênticas
“Hoje estás impossível.”
Disse-lhe ele, com o semblante carregado.
“Achas mesmo que sim?!”
A pergunta saiu de rajada.
Estava cansada.
Cansada de se explicar.
Cansada de se justificar.
Cansada de ouvir versões diferentes da mesma crítica.
“És tão implicativa.”
“Levas tudo demasiado a peito.”
“Tens de aprender a desligar.”
Ao longo da vida, foi colecionando rótulos. Como se sentir fosse um defeito de caráter. Como se reparar nas coisas fosse uma falha. Como se fazer perguntas fosse uma afronta.
E depois havia as associações. As perguntas que nasciam dessas associações.
As conclusões que pareciam surgir do nada, mas que eram apenas o resultado de uma mente que ligava pontos que mais ninguém tinha reparado que existiam.
Também por isso lhe chamavam implicativa.
Mas e se não fosse complicar?
E se fosse só observação?
E se não fosse implicação?
E se fosse apenas atenção?
Porque aquilo que uns chamam implicação, outros poderiam chamar atenção.
Atenção aos detalhes.
Atenção às mudanças subtis de tom.
Atenção ao que é dito.
E, sobretudo, ao que fica por dizer, fazer.
É precisamente isso o que alguns investigadores têm procurado compreender nas últimas décadas.
É um facto que existem pessoas para quem o mundo parece chegar com mais intensidade.
Pessoas que vão muito além do ver e ouvir.
Observam.
Processam.
Associam.
Sentem.
Não é uma doença.
Não é uma perturbação.
É apenas uma forma diferente de estar no mundo.
O mais fascinante nem é isso. O mais fascinante é aquilo que esta investigação nos revela sobre a influência do meio.
Durante muito tempo acreditámos que a genética era uma espécie de sentença. Hoje sabemos que a história é mais complexa e muito mais interessante.
Os genes não vivem sozinhos. Dialogam com as experiências. Com os afetos. Com os medos. Com os ambientes onde crescemos.
Em termos práticos, não somos apenas aquilo que herdámos. Somos sobretudo aquilo que o ambiente ajuda a desenvolver. Ou a silenciar.
Não posso crer que alguém acredite que uma criança nasça a questionar o seu valor.
Aprende a fazê-lo, isso, sim.
Através dos olhares. Das palavras. Das interpretações que recebe daqueles que a rodeiam.
E depois, quando a necessidade de sermos nós próprios entra em conflito com a necessidade de pertencermos, de sermos amados, de mantermos a ligação, o vínculo, àqueles de quem dependemos, nesses momentos raramente escolhemos a autenticidade. Escolhemos a adaptação.
Não deixamos de sentir.
Aprendemos a esconder o que sentimos.
Não deixamos de observar.
Aprendemos a fingir que não vimos.
Não deixamos de fazer perguntas.
Aprendemos quais são as perguntas que os outros preferem não ouvir.
Pouco a pouco vamos aparando partes de nós próprios para cabermos melhor nas expectativas alheias. Andamos em pézinhos de lã.
E aquilo que começou como uma estratégia de sobrevivência transforma-se, muitas vezes, numa forma de viver.
Chegamos à idade adulta sem perceber que continuamos a negociar a nossa autenticidade em troca de aceitação.
Continuamos a pedir desculpa por ocupar espaço.
Por sentir.
Por pensar.
Por questionar.
Por existir exatamente como somos.
É por isso que tantos adultos vivem com uma estranha sensação de desencontro. Como se houvesse uma distância entre a pessoa que mostram ao mundo e a pessoa que realmente são.
Uma distância construída ao longo de anos de adaptação. Ao longo de anos a tentar merecer pertença. Ao longo de anos a acreditar que, para sermos amados, teríamos primeiro de ser diferentes.
E nós, mulheres, chegamos à menopausa convencidas de que estamos a mudar. Que estamos mais difíceis. Mais implicativas. Mais intolerantes. Mais emotivas. Mais sensíveis.
É verdade que as alterações hormonais desta fase da vida influenciam as emoções, a resposta ao stress e a forma como processamos o mundo.
Mas essa é apenas uma parte da história.
E se a menopausa não nos tornar mais sensíveis?
E se apenas tornar mais difícil continuar a ignorar aquilo que sempre sentimos?
Depois de décadas a adaptar-nos.
A agradar.
A corresponder.
A evitar conflitos.
A engolir palavras.
A silenciar necessidades.
Pode ter chegado a hora em que o corpo já não quer colaborar nessa negociação permanente. E, finalmente, a autenticidade começa a reclamar espaço. E aquilo que os outros interpretam como mudança é, afinal, um reencontro.
Não com uma nova versão de nós próprias. Mas com a original.
E facilmente concluímos que o problema nunca foi sentir demais. Foi acreditar que, para pertencermos, precisávamos de deixar de ser quem somos.
* A crónica tem por base a investigação sobre Sensibilidade de Processamento Sensorial (Aron & Aron, 1997), Sensibilidade Diferencial e Sensibilidade Ambiental (Greven et al., 2019), bem como estudos sobre a interação entre genética, ambiente e epigenética no desenvolvimento humano e sobre as alterações neurobiológicas associadas à transição da menopausa.