Israel queria o seu próprio '11 de Setembro" para ocupar Palestina
O artista palestiniano Emil Saba afirma que a resposta de Israel ao ataque do Hamas em outubro de 2023 mostra que a ocupação da Palestina "estava pronta" e Telavive queria ter o seu próprio '11 de setembro'.
Numa entrevista à agência Lusa, o diretor artístico do Asthar Theatre, de Ramallah, salientou que não é político mas sim um artista, embora tal não o iniba de ter uma opinião e visão da "ocupação e do genocídio" que Israel está a cometer na Palestina, seja da Faixa de Gaza, na Cisjordânia ou em Jerusalém Oriental e Ocidental, "tal como se definiam as fronteiras em 1948".
"O que aconteceu logo depois de 07 de outubro mostra como a ocupação estava pronta para o que Israel queria fazer em Gaza, com todos os planos que vimos com [o Presidente dos Estados Unidos, Donald] Trump, confiscando o território, querendo transformá-lo em hotéis e centros comerciais, com [Jared) Kuchner [investidor e promotor imobiliário] e todas essas pessoas e até já estavam a planear e a lidar com a Arábia Saudita sobre a normalização", argumentou Saba, 37 anos.
Natural de Ramallah, onde nasceu em 1989, o também ator e argumentista declarou que o ataque do movimento terrorista palestiniano Hamas, que assassinou cerca de 1.200 pessoas e raptou mais de duas centenas em Israel, levou a atenção do mundo ao caso, "pois os palestinianos estavam a dizer as mesmas coisas há anos".
"E também na Cisjordânia, onde as coisas já estavam a caminhar muito mal com os colonos. Agora há uma expansão dos colonatos, com mais terras e mais 'checkpoints', como se tudo já estivesse preparado", acrescentou Saba, qye estudou teatro em Ramallah e tirou o Masters and Fine Artists (MFA) nos Estados Unidos.
Questionado pela Lusa sobre o já longo conflito entre Israel e a Palestina, Saba afirmou que Israel não pode "aprisionar uma nação e pessoas durante 20 anos numa pequena cidade e negar-lhes todos os direitos, especialmente em Gaza", e esperar que fiquem quietos.
"Algum dia, algo vai acontecer. E é assim que eu vejo isso. É como se alguém provocasse um urso e esperasse que o urso ficasse quieto na jaula. Um dia o provocador daria atacado", prosseguiu, alegando que os israelitas não veem os palestinianos como humanos.
"Querem que sejamos a vítima perfeita, que continua a ser oprimida, que não grita, não reclam, não faça nada. E quando há respostas, atirando pedras por exemplo [alusão às duas Intifadas -- 1987/93 e 2000/05], então eles choram e fazem-se de vítimas", sustentou.
"É um produto do nacionalismo, do fascismo, do poder e do fanatismo religioso. Afinal de contas, o imperialismo, porque a ocupação não está a acontecer sozinha, ela é apoiada por tantos poderes", sublinhou lamentando a "contínua e cada vez maior expansão" dos colonatos israelitas na Cisjordânia ocupada.
Para Saba, esta expansão só poderá acabar se houve "uma interferência do mundo", através de lei e do direitos internacionais e com sanções, pois o exército continua as operações com total impunidade e sem linhas vermelhas.
Instado pela Lusa sobre a divisão que reina entre as direções palestinianas desde 2007 (Hamas, na Faixa de Gaza, e Fatah, na Cisjordânia), Saba respondeu que não pertence a nenhuma das fações ou partidos políticos.
"Continuamos a esquecer que esses grupos saíram da resistência, saíram da população que queria libertar a terra e defender o povo. Mas, sim, eles (Hamas e Fatah) acabaram por ficar no poder por muito tempo. E todos, não as pessoas, mas todos os outros sabiam disso. Israel estava a beneficiar da presença do Hamas em Gaza. A divisão entre a Cisjordânia e Gaza estava a beneficiar Israel. E eles estavam a financiar e a trabalhar com base nisso", acrescentou.
Apesar de tudo, Saba disse acreditar num Estado palestiniano independente.
"Com Faixa de Gaza, Cisjordânia, tudo. A Palestina histórica é Palestina. Jerusalém Oeste e Leste. A Jerusalém de 1948 é toda Palestina", concluiu.