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Será este o pior…?

A gestão do dossier da habitação foi deixada ao mercado e assim constituir uma família, ter um lar, parece ser um luxo é secundário

É curioso, mas apesar de ser duma família de sportinguistas, o futebol nunca me fascinou. Passo anos sem ver um jogo ao vivo. Quando muito, um ou outro da seleção na televisão. Sempre achei estranha a devoção clubística, fiel, perene e muitas vezes cega. Talvez, por isso, na política gostei sempre de manter a liberdade de pensamento, como uma janela sempre à mão, para o ar fresco varrer o mofo. Assim, sendo eu simpatizante daquilo que muitos dizem ser o centro-direita, tolerante, democrático, centrado na família: Na verdade nunca me coibi de elogiar ou criticar, o que achava certo ou errado.

Faço esta reflexão a propósito do governo da República, chefiado por Luís Montenegro. A sua impopularidade crescente nas ruas e nas sondagens dão-lhe hoje o “bronze do pódio”. E aqui conversando com os meus botões, uma pergunta surgiu naturalmente: “Será este o pior governo que o centro-direita já produziu em Portugal?”

Desde o inspirador e corajoso governo de Sá Carneiro, que recentrou o leme na Europa comunitária, arrefeceu a chama marxista, mostrou aos portugueses um futuro de tolerância e a alternância política. Deu esperança a numa terceira via, entre a revolução proletária e a ditadura fascista. E ele pagou o preço supremo.

Cavaco Silva foi o mestre da integração europeia. Do crescimento económico, da modernização das infraestruturas e da estabilidade política. A educação deu um pulo notável, fazendo esquecer o analfabetismo ancestral. Hospitais e centros de saúde multiplicaram-se pelo país e regiões. Cavaco, de certa maneira, lavou a cara ao país.

O mais curto mandato de Durão Barroso fez, no entanto, de Portugal uma voz mais ouvida e credível na Europa e no mundo. Ajudou à paz em Angola, à independência de Timor. Soube dialogar para reformar a segurança social e a RTP. Pela primeira vez o défice crónico foi domado no Portugal pós 25 de Abril. O seu mérito premiou-o na Europa.

Passos Coelho governou numa das piores crises financeiras e políticas da história de Portugal, herdada de Sócrates. Foi o líder de resiliência férrea e coragem. Apostou em mudanças estruturais, na renegociação de parcerias público-privadas (que dizia serem privado-públicas) e estimulou a RE industrialização. Mas soube ouvir quando o parceiro de coligação disse “basta de austeridade”, acabando por trocar o ministro das finanças. Afastou a Troika de Portugal sem recurso a um segundo resgate. Com ele, o equilíbrio das contas públicas é um “dogma” nacional, que nenhum governo até hoje descurou.

Nesta reflexão, não escondo que muitos destes líderes do centro-direita cometeram erros, alguns até graves. Que por vezes abusaram da soberba por governarem em maioria, erros que, no fundo, levaram às respetivas quedas e a mitigar o seu sucesso.

Nesta reflexão chegamos ao atual governo. Ainda na linha de partida, foi manchado pela sombra da corrupção e favorecimento, da qual não se livrou ainda. Se o combate à corrupção era a reforma prometida, então porquê manter agora o secretismo total sobre quem financia os partidos? E a adiada reforma da Justiça, não merece alguma atenção? Se Passos blindava-se com o escudo da transparência, talvez até algo crua, não será que Montenegro prefere esconde-se com a vitimização?

Fora de casa, a voz portuguesa ainda é a de António Costa, e o atual governo mantém a subserviência a Trump e Netanyahu, ao contrário de muita direita europeia.

O SNS nunca esteve tão mal. À ministra fazia-lhe bem ir admitindo um ou outro erro e, por vezes, mudar um pouco de rumo. Mas não admite e não muda...

A gestão do dossier da habitação foi deixada ao mercado e assim constituir uma família, ter um lar, parece ser um luxo é secundário. Pior, esta reforma laboral (mais imposta que proposta) parece ser especialmente talhada às estóicas mães portuguesas, para que desistam de vez de ter filhas e filhos. Conheço inúmeros trabalhadores portugueses de sucesso lá fora (tanto em países liberais como mais sociais democratas) pelo que me pergunto se, a menor de produtividade portuguesa, não se deverá mais à reduzida qualidade de gestão pública e privada em Portugal, do que aos nossos trabalhadores?

Felizmente a economia pouco abrandou e o crescimento mantém-se convergente com a Europa há muitos anos. A inflação está controlada e o desemprego é reduzido pelo “boom” turístico que as guerras alheias estão a facilitar. A nossa exportação mantém a qualidade para ter sucesso e o défice que Durão e Passos lutaram, continua controlado.

Fico triste pois um governo socialista minoritário ainda não tem condições de governar o país, nem sequer este partido interiorizou ainda todos os erros que cometeu. Nem quero, em vez, assistir ao fim da nossa democracia, já prometida pela alternativa saudosista.

Uma perceção vai-se estruturando, ou este governo faz um improvável Mea-culpa e muda de estilo, bem como altera as prioridades, ou será, provavelmente, o pior governo que o centro-direita já teve em Portugal.

Finalmente, compartilho-vos também outra impressão. Tal como aconteceu à esquerda com os governos de Sócrates, não será este governo da República o menos amigo das duas autonomias, de entre todos os governos do centro-direita, como se vê na atual questão da mobilidade?

Gostava de estar errado…