Miserabilismo encantado
Faz parte da condição humana um certo encantamento orgulhoso acerca das dificuldades do passado, do crescimento, da educação, em suma da criação.
Não há muito tempo estive num evento em que se comemorava o 50.º aniversário da nossa Autonomia, muito bem conseguida e trabalhada por ilustres personalidades formadas e informadas do nosso Arquipélago, em que quase, ênfase no quase, todos os intervenientes falavam do seu passado ou do dos seus ascendentes com um miserabilismo orgulhoso, quase encantado, versando sobre as dificuldades ou impossibilidades da formação académica, das necessidades básicas em falta, em casa, da prole de filhos deitados num sótão em formato “tetris”, do frio, da fome, da inexistência de calor, de alimentação, de calçado, como se fosse um troféu que se levanta com cagança.
Reparei também que se valorizavam as pessoas que, havendo, já, facilidades de formação local, se licenciaram, pós-graduaram ou “mestraram” sem sair da ilha. Outra espécie de miserabilismo 2.0.
Quer me parecer que o madeirense se regozija das suas dificuldades, passadas, presentes ou até futuras como se de um cavalo que salta barreiras e não cai no poço se tratasse.
Desgraçados aqueles que com a graça de Deus e o trabalho e se calhar sorte, dos ascendentes, nunca passaram fome, os que tiveram pais a trabalhar no sector terciário, em postos de chefia e de grande responsabilidade. Aqueles que tiveram boas casas, bons carros, boas roupas, bom calçado e cuidados de saúde. Abraços, beijinhos, um leitinho ao deitar. Que se chibatem sem piedade e delapidem com basalto os betos, mimados e bem formados.
Sim, porque ao que tudo indica, não ter sentido dificuldades na criação é, motivo de vergonha. Que traste aquele que nunca precisou acordar às cinco para apanhar o autocarro para ir para a escola, que vergonha de vida que seria ser filhinha do papá que, não agora, no tal passado miserável, já iam buscar os filhos à escola. Que ultraje!
Claro, porque o que está a dar, o que vende, o que suscita comiseração é tal, o miserabilismo encantado, o miserabilismo orgulhoso. Tudo mais não mais se trata do que gente privilegiada que não merece o chão que pisa com os seus “Louboutins”.
Verifiquem o presente, as facilidades de locomoção, as escolas em todos os concelhos, as acessibilidades, os cuidados de saúde, a longevidade. Verifiquem a felicidade dos vossos filhos que podem praticar desporto, música, cultura, sem sair do seu concelho e serem campeões mundiais e esqueçam o miserabilismo encantado. Tal como, esse, não é motivo de orgulho, não sentir dificuldades, não é motivo de vergonha.