Vovó Maconde - família de um lado e do outro da guerra
Juliana nasceu em Muidumbe, família camponesa, aprendeu a ler e escrever na Missão Católica. Casou com um branco, com formação agrícola e nascido em Trás-os-Montes. O casamento foi em casa, pelo padre Luis Pedro Mwakala, porque a igreja estava ocupada na preparação da festa dos 25 anos da Diocese. Saiu para Mocimboa da Praia em 1965, já era adulta, queria ser independente e deixar de trabalhar como empregada doméstica. Em Mocimboa da Praia, antes da guerra e depois da guerra, a vida era normal e a convivência com a comunidade muçulmana, com muito respeito uns com os outros desde os tempos antigos, e cada um tinha o seu cemitério.
A sua família estava separada, uns na zona da FRELIMO e outra na zona das tropas portuguesas, mas comunicavam entre si com muito cuidado, pois tinham medo de serem presos.
Conheceu o Padre Daniels da congregação holandesa, soube da sua morte.
Estava em Muidumbe quando houve o ataque ao posto de Chai. A população pensava que era do início da guerra.
Conheceu a guerrilheira Giraldina Miwtu e a sua família, os irmãos e tios: Maria Hema, Bendita, Padre Atanásio, padre Amaro. O padre Atanásio preso pela PIDE. O pai da Giraldina foi o seu catequista da missão, depois juntou-se à guerrilha.
Teria 15 anos quando se deu o Massacre de Mueda em 1960, estava em Muidumbe, ficaram todos aterrorizados.
Muitos estudantes dessas missões católicas tornaram-se guerrilheiros e comandantes. Missão do Imbuho criada em 1939, onde estudou Chipande, e missão de Namuno.
Na missão os rapazes também tinham artes e ofícios, como exemplo carpintaria, pedreiros, caçadores, para preparar o homem que vai ser pai e chefe de família. As meninas, além de ler e escrever, aprendiam culinária, tratamento de roupas, trabalhos do campo, em geral preparar uma mulher, que um dia vai casar e ser mãe.
Lembra-se do Bispo José Garcia de Porto Amélia e da sua luta para o desenvolvimento do povo de Cabo Delgado. Ele veio para Portugal em 1975 por questões de saúde, mais tarde, depois da independência, voltou a Moçambique e afirmou que pessoas fizeram centenas de Km para o visitar, e andou por todo o lado sem problemas nenhuns. Escreveu livros, «Alicerce e construção da igreja africana», «Diário de Mutuali» e «Evangelização de Cabo Delgado».
O Bispo Garcia era da sociedade da Boa Nova. Criou seminários, a Escola de Professores, Catequistas e a primeira Congregação religiosa de Moçambique, Filhas do Coração Imaculado. Foi professor dos primeiros padres nativos, construiu a missão de Mutuali (Nampula), a igreja e o internato masculino e feminino e o Centro de Saúde. Conheceu D. José Garcia, lembro-me bem da sua chegada a Nangololo, fizemos uma festa grande, com danças e cânticos que o padre Guilherme Malessi nos ensinava.
Conheceu o Bispo Januario em Pemba, e teve muito gosto em trabalhar com ele, e ensinou-lhe muitas coisas boas. “Era muito amigo do meu marido. Ele também foi bispo de Nacala. D. Tomé conheci pouco, quando ele foi nomeado Bispo de Pemba, eu já estava em Lisboa”.
Juliana nunca saiu de Mocímboa da Praia para ir a Porto Amélia, à Ilha de Moçambique ou a Nampula antes da independência. Saiu de Mocímboa da Praia em 1991 por razões de saúde do marido.
O povo reagiu bem à chegada da FRELIMO a Mocímboa e da saída das tropas portuguesas. Há quem diga que alguns militares negros (até das tropas comandos e dos GEs) das tropas portuguesas eram também da FRELIMO. Lembra-se do acordo de Lusaka para a independência, em 7 de Setembro, e dos problemas que daí resultaram em diversas cidades, incluindo Pemba, que só se acalmou em 9 de Setembro. “Alguns guerrilheiros nessa altura voltaram para o mato, pensamos o pior, mas quando houve a paz até tratavam o meu marido por cunhado, compadre, etc.”
Quando as tropas portuguesas saíram de Mueda e de outros quartéis importantes de Cabo Delgado, muita gente que vivia de trabalhar para as tropas veio atrás das tropas para diversos sítios. E muitos deles ficaram sem emprego, mas ajudávamos uns aos outros.
No mato as tropas portuguesas encontravam cruzes onde a FRELIMO enterrava os mortos. Os combatentes da guerrilha, muito jovens, eram quase todos católicos. Não conheceu nenhum guerrilheiro famoso da Frelimo antes da guerra, só a seguir à independência.
O Camilo de Sousa era amigo do marido de Juliana, cineasta e guerrilheiro, trabalhou muito tempo com o Pachinuapa, governador de Cabo Delgado.
Hoje Juliana vive no Barreiro, tinha boas relações com a Câmara. Sabe que o Humberto era amigo do Garrido, primo do Camilo. O Garrido era médico das tropas portuguesas em Nampula, e militante da FRELIMO. Mais tarde foi Ministro da Saúde de Moçambique.
Vovó, hoje com 80 anos. Sente-se integrada nesta terra. Faz teatro, ensina as crianças, conta histórias do povo maconde, já escreveu um livro, e está em curso outro sobre os costumes ancestrais do povo Maconde.