Entre excedentes e dificuldades, a Madeira real
Há uma tentação recorrente deste Governo Regional, escolher o indicador que lhe é mais favorável, isolá-lo do contexto e pintar de cor-de-rosa o retrato da Região.
Aconteceu agora com o índice de desigualdade salarial entre homens e mulheres, como já tinha acontecido com os dados da desigualdade de rendimentos. Mas a leitura destes índices deve ser feita com contexto e prudência. Porque estes indicadores não medem, por si só, o peso da renda da casa, o preço do cabaz alimentar, o custo da insularidade, as despesas com saúde (demasiadas vezes suportadas no privado, por falta de resposta pública), nem a dependência de apoios sociais para conseguir sobreviver.
Por isso, a pergunta não pode ser apenas quanto diferem os rendimentos entre homens e mulheres, ou qual é a distância estatística entre os rendimentos dos cidadãos. A pergunta tem de ser outra, quanto ganham realmente as pessoas? E que capacidade têm para viver numa Região onde a habitação, a alimentação, a energia, os transportes e a saúde pesam cada vez mais no orçamento das famílias?
O relatório “Portugal, Balanço Social 2025”, da Nova SBE (divulgado esta semana), desmonta a narrativa cor-de-rosa do Governo Regional. A Madeira continua acima da média nacional no risco de pobreza, com 16,6% da população nesta condição. Somos a segunda região do país com maior privação material e social, com 15,1%; temos 5,4% de privação material e social severa; apresentamos o pior resultado nacional no acesso à medicina dentária, com 23,4%; e temos a maior sobrelotação habitacional do país, com 19,4%. Portanto, antes de o Governo celebrar indicadores escolhidos a dedo, devia olhar para estes números. Há demasiados madeirenses com dificuldades reais, em casas sobrelotadas, com privação no acesso à saúde e sem condições de vida compatíveis com a propaganda oficial.
Torna-se ainda mais difícil aceitar este discurso quando regressam os anúncios de excedentes orçamentais, num cenário em que o custo de vida continua a pesar fortemente na vida das famílias. Se há excedente, se o Governo está a arrecadar mais impostos que nunca, porque é que isso não se sente, de forma clara e suficiente, na vida das pessoas? Porque é que tantos madeirenses continuam a cortar na saúde, na alimentação, no conforto da casa ou no acesso a bens essenciais?
Há alternativas concretas, como o uso pleno da autonomia fiscal para deixar mais rendimento disponível nas famílias, o reforço dos apoios aos idosos, creches gratuitas, um subsídio de insularidade para trabalhadores do setor privado e social, respostas efetivas na habitação e medidas que protejam quem trabalha, mas continua em situação de fragilidade. O Partido Socialista tem apresentado, no Parlamento, várias soluções para uma realidade que é sentida pelos madeirenses, mas que tem sido sucessivamente chumbada pela arrogância e vaidade do PSD/CDS.
O Governo tenta ler os dados da forma mais conveniente possível. Mas a vida das pessoas não se resolve com leituras convenientes. Resolve-se com políticas públicas, com escolhas orçamentais e assumindo que existem problemas factuais na vida dos madeirenses e porto-santenses.
Entre excedentes anunciados e dificuldades sentidas, há uma Madeira real que este Governo insiste em não ver. A Madeira não precisa de indicadores escolhidos a dedo, quando tantas famílias continuam com a vida apertada. Precisa de justiça social efetiva, salários dignos, proteção social eficaz e de um orçamento que não se deixe ficar pelo brilho dos excedentes, mas que chegue à vida concreta das pessoas, à renda da casa, à alimentação, à saúde, aos transportes e à dignidade de cada madeirense.