O bom, o mau e o cowboy
O bom: Francisco Assis
Cresci habituado a ouvir, da esquerda à esquerda do PS, as maiores fantasias sobre a política externa de Portugal. Seja ela quanto à União Europeia, à NATO ou aos Estados Unidos. Desde sermos peões ao serviço do grande capital, passando por lacaios do imperialismo americano, até a vassalos voluntários do complexo militar-industrial. Nada que fosse, à data, surpreendente. O que não estava nos meus planos era, em 2026, ouvir efabulações semelhantes vindas da boca do líder parlamentar do PS na Assembleia da República.
Eurico Brilhante Dias, perante as declarações de Marco Rubio, secretário de estado americano, de que Portugal teria autorizado a utilização da Base das Lajes ainda antes do pedido ter sido feito, lembrou-se de tirar da gaveta o velho discurso comunista. Para o socialista, o discurso de Rubio constituía uma humilhação de Portugal à escala planetária e colocava-nos, a todos, de cócoras. Há duas dimensões para a intervenção de Brilhante Dias. A primeira corresponde à evidente obrigação que o governo português tem de prestar contas à Assembleia da República, até por existirem duas versões opostas dos mesmos factos. A de Paulo Rangel, ministro português, e a de Marco Rubio, seu homólogo americano. A segunda dimensão é a que revela um partido perdido e esquecido. Perdido, porque o governo português não tem dimensão planetária. Esquecido, porque o PS não teria tomado uma decisão diferente da que o governo do PSD tomou. Basta recordar os voos da CIA que transportavam presos para Guantánamo ou a extensiva utilização da base ao longo da guerra da NATO no Afeganistão. Tudo autorizado, sem recuo, por governos do PS. Mas nem todos, no Partido Socialista, sofrem de excitação precoce com a política externa portuguesa. Desta feita, coube a Francisco Assis salvar o PS de si próprio. Chamou ao que Brilhante Dias disse “retórica infantil e extremista” e tinha razão no diagnóstico. Ainda assim, não evitou a ironia se ser preciso um eurodeputado do PS para lembrar ao líder parlamentar socialista a história do seu partido.
O mau: Esquadra do Rato
Conheci, ao longo dos anos e por razões profissionais, vários polícias. São, na sua arrebatadora maioria, gente dedicada ao trabalho e abnegada na dedicação aos outros. Cumprem essa missão, é preciso repeti-lo, em condições de trabalho chocantes. O ponto prévio é necessário pela dimensão do que aconteceu na Esquadra do Rato e para que não se confunda a árvore com a floresta. As vítimas da monstruosidade ali ocorrida foram toxicodependentes, sem-abrigo e imigrantes. O que lhes fizeram foi violento, desumano e absolutamente degradante. Não foi excesso de zelo ou equívoco operacional. Foi humilhação escolhida a dedo, com requinte de crueldade medieval. Há, no horror da Esquadra do Rato, um crime maior do que quem o cometeu e que tem vida para além das paredes onde foi consumado. A violência com farda e insígnia contamina tudo. Cada polícia que cumpre com dignidade a sua missão acorda no dia seguinte com o peso do que outros fizeram em nome próprio, é certo, mas ao abrigo do mesmo uniforme e da mesma autoridade. O crime é individual, mas a mancha é institucional. Isso obriga a que a análise seja feita com rigor. É aqui que entra o Chega, com uma proposta de presunção de legítima defesa da polícia, que não é mais do que legalizar a ideia de que primeiro se dispara e depois fazem-se as perguntas. Ventura promete respeito e autoridade à polícia, mas, na verdade, propõe-se a fazer lei da impunidade que a vai corroer por dentro. O caminho para uma polícia mais credível e mais respeitada não é menos escrutínio, nem uma presunção legal que têm razão. Uma polícia que responde pelos seus atos não é uma polícia enfraquecida. É uma polícia que pode, e que quer, ser levada a sério.
O cowboy: Donald Trump
YMCA, dos Village People. Um polícia, um índio, um soldado, um cowboy e um trabalhador da construção civil. Juntos, formaram a improvável banda sonora da visita de Trump à China, ensaiada, pela Banda Militar do Exército chinês, no final do jantar de estado em Pequim. Trump chegou à China com uma lista. Quinhentos aviões Boeing encomendados e acesso ao mercado chinês para os chips da Nvidia. Há pouco mais de um ano, o clima negocial era outro. Os Estados Unidos impuseram tarifas de 145% sobre produtos chineses. Para além das suas próprias tarifas, a China respondeu com uma medida mais certeira. Restrições à exportação de minerais raros, dos quais a indústria tecnológica americana depende. Encostado à parede, Trump recuou. O cowboy perdeu o chapéu ainda antes de chegar ao duelo. Já em solo chinês, Xi Jinping foi pragmático na proposta. Tirem as mãos de Taiwan ou há risco de conflito. A Casa Branca preferiu não comentar. A relação entre os Estados Unidos e a China não é uma reedição da Guerra Fria, a interdependência económica tornou isso impossível. Hoje, as duas potências jogam o mesmo jogo. Muita cerimónia, pouca substância e pouca vontade em resolver o que não rebentou. Entretanto, descobriu-se que Trump movimentou 220 milhões de dólares em ações de empresas que ele próprio promoveu junto dos chineses. O número de transações não tem precedente na história recente da Casa Branca. Afinal, o cowboy é um homem de negócios. Nem sempre a favor do seu país.