Escassez de combustível impede distribuição de 6,3 milhões em ajuda humanitária
A escassez de combustível em Cuba está a impedir a distribuição de 6,3 milhões de dólares (5,46 milhões de euros) em bens humanitários essenciais, alertou ontem o coordenador residente da ONU Francisco Pichón.
Numa conferência de imprensa, em Nova Iorque, Pichón disse ter informações de que cerca de 170 contentores de bens humanitários essenciais já chegaram a Cuba, totalizando cerca de 6,3 milhões de dólares, mas salientou que não estão a chegar aos beneficiários devido à falta de combustível.
O coordenador residente da ONU para Cuba explicou que a missão das Nações Unidas na ilha caribenha está a dar prioridade à contratação de operadores privados capazes de importar combustível para o país.
"Estamos a considerar todas as opções, incluindo a colaboração com o setor não estatal ou o setor privado em Cuba, que foram autorizados e conseguiram receber um fornecimento limitado de combustível", admitiu.
Questionado sobre se as Nações Unidas estavam autorizadas a importar gasolina, Pichón afirmou que "estão em curso negociações" entre a organização e os representantes norte-americanos na ONU "para tentar chegar a um acordo que permita o envio de combustível para Cuba", visando apoiar a resposta humanitária e garantir a continuidade dos serviços essenciais.
"Esses diálogos ainda estão em curso e esperamos encontrar uma solução que assegure a viabilidade operacional de todo o nosso plano", acrescentou.
Pichón lembrou que Cuba está há mais de três meses sem combustível suficiente e as consequências humanitárias continuam a aumentar, apesar dos recentes esforços da Rússia para fornecer combustível.
O representante da ONU explicou que Cuba recebeu apenas um carregamento de petróleo da Rússia, estimado em "cerca de 100 mil toneladas ou cerca de 700 mil barris", o suficiente para as necessidades do país durante "12 ou 13 dias".
Afirmou ainda que o México "é um dos Estados-membros que se tem empenhado bastante em encontrar uma solução para garantir o acesso ao petróleo para fins humanitários", confirmando, por outro lado, que "nenhum combustível venezuelano chegou ao país".
Em janeiro passado, Washington suspendeu os embarques de petróleo da Venezuela para Cuba após a captura e detenção do então líder venezuelano Nicolás Maduro. Além disso, o Presidente norte-americano, Donald Trump, ameaçou impor tarifas aos países fornecedores de petróleo bruto, numa tentativa de intensificar o bloqueio à ilha.
A Casa Branca declarou na semana passada que decidirá "caso a caso" se autorizará a chegada de petroleiros ao país das Caraíbas.
Francisco Pichón frisou hoje que, embora qualquer combustível adicional possa proporcionar um alívio temporário, é insuficiente em comparação com a escala das necessidades nacionais e não aborda de facto a natureza estrutural do bloqueio petrolífero e a forma como afeta todos os serviços essenciais.
Só em março, deu como exemplo, o sistema elétrico nacional cubano foi desligado três vezes, deixando o país às escuras durante um ou dois dias, enquanto a energia era restabelecida.
Além disso, mais de 96.000 cirurgias foram adiadas, incluindo mais de 11.000 cirurgias pediátricas, disse.
O programa nacional de imunização também está atrasado, afetando cerca de 3.000 crianças.
"Temos cerca de um milhão de pessoas que dependem de camiões-cisterna para o abastecimento de água e que estão atualmente com dificuldades devido à escassez de combustível. Temos cerca de 411.000 crianças e adolescentes com aulas em horário reduzido", contou o coordenador.
"E, como sabem, Cuba é também o país mais envelhecido da América Latina, o que obviamente intensifica ainda mais estas vulnerabilidades. São indivíduos que dependem de sistemas funcionais e precisam de médicos para melhorar as instalações, de professores para chegar às escolas e de sistemas de transporte para atender crianças com deficiência e serviços essenciais", sublinhou ainda.