Água mais quente ou más decisões?
Após ler o artigo publicado no Diário de Notícias a 3 de abril de 2026, com o título “Água mais quente no inverno pode estar a matar a lapa”, confesso que esbocei um sorriso.
Compreendo que os biólogos em questão possam não dizer tudo o que pensam — afinal, trabalham para a mesma Secretaria responsável por decisões que muitos consideram discutíveis. Ainda assim, convém não subestimar a inteligência dos madeirenses.
Fui funcionário da Direção Regional das Pescas durante 45 anos, até 30 de setembro de 2025. Iniciei-me na caça submarina em 1974, fiz o meu primeiro mergulho com garrafas em 1982 e participei em diversos cruzeiros científicos, bem como em embarcações de pesca comercial (espada, atuneiros, ruameiros, entre outros). Conheço o mar, conheço as lapas e conheço o setor.
Os estudos referidos no artigo foram realizados em ambiente laboratorial. Falta o essencial: observação e validação no meio natural. Durante alguns anos colaborei na recolha de lapas para estudos no Centro de Maricultura da Calheta. Essas lapas eram mantidas em recipientes de plástico, dentro de um pavilhão — condições que estão longe de reproduzir o seu habitat natural. Mesmo assim, só após estudos complementares no meio selvagem se poderiam retirar conclusões credíveis.
O que não é dito claramente é que a autorização para capturas de até 200 kg de lapas por embarcação, por dia — envolvendo nove embarcações — foi, no mínimo, uma decisão altamente questionável.
Compreendo os constrangimentos de quem trabalha dentro do sistema. Mas também sei, por experiência própria, que muitas vezes a opinião técnica não coincide com as decisões políticas.
Ainda vamos a tempo de corrigir: é fundamental realizar um estudo rigoroso e independente sobre o estado do stock de lapas e, só depois, definir medidas de gestão adequadas.
Importa ainda referir que as amostragens biológicas realizadas durante o longo período de defeso, até 30 de setembro de 2025, tiveram por base lapas provenientes de apreensões. Isso não constitui, por si só, um estudo científico robusto.
Termino como comecei: os madeirenses não são ingénuos. Merecem mais — mais transparência, mais rigor e mais coragem nas decisões.
Jorge Lucas