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Tanto ódio à Constituição…

Somos inundados pela uma brutal imposição do egoísmo social. Em contraposição aos valores da confiança, da solidariedade e da cooperação entre indivíduos e povos, a ideologia do “salve-se quem puder” é apresentada como estruturante de um suposto pensamento único.

A difusão das ideias da competitividade ou sucesso individual à margem das relações sociais; a atomização da vida coletiva; a brutal desvalorização de processos e projetos de transformação das sociedades; a estigmatização das organizações sociais e da sua intervenção no plano dos direitos coletivos; o apelo ao conformismo – são alguns dos exemplos de conceções profundamente enraizadas na sociedade a que pertencemos.

Em tanto lugar, vigora um violento individualismo. Prevalece, hoje, um discurso em que o outro é considerado como se fosse o inimigo. Numa cultura narcísica como a nossa, permeada pela moral do individualismo levada ao seu exagero, cada qual é levado a tratar apenas de sua vida e a desconsiderar quem se avizinha.

No contexto internacional, e num quadro em que Portugal não se diferencia, intensificam-se políticas que ameaçam direitos, condições de vida e a democracia. Esta é, por consequência, toda uma torrente contra a democracia e o regime democrático, de ataque aos seus valores.

Neste contexto, não admira que seja disseminado tanto ódio à atual Constituição da República Portuguesa.

Quer seja através do papel das plataformas digitais, quer contando com os padrões de entretenimento ou modos de vida social, que têm na publicidade e na comunicação social peças essenciais, a exacerbada cultura do egoísmo é propagada através de um individualismo avassalador que toma conta das mentalidades.

Todas estas dinâmicas são intensificadas nos nossos dias por uma manipulação ideológica que visa descredibilizar e desacreditar as pessoas, projetos e instituições com um consequente compromisso social, com intervenção em favor da justiça social, com propostas para uma nova humanidade.

Ante esta onda ideológica não surpreende tanto rancor à atual Constituição.

A nossa Constituição consagra o oposto desta realidade que nos envolve. Aponta outro caminho para o País. Consagra direitos fundamentais. Exorta à promoção de valores do desenvolvimento humano e social. Incorpora, como pilares estruturantes da sociedade, a solidariedade e a justiça. Afirma os valores de Abril. Desafia-nos à coragem de ousar mais e melhor democracia.

Não é, pois, de estranhar que a extrema-direita tenha por propósito liquidar a atual Constituição. No entanto, espanta-nos ver tanto “idiota útil” a aderir àquela propaganda sem compreender completamente os objetivos da causa e as suas consequências.