50 e inquieto
Cheguei aos 50 e ando inquieto. Não porque a vida corra mal — pelo contrário — mas porque começo a sentir, com uma clareza que antes não tinha, a falta daquela ilusão leve dos 20 anos. Nesse tempo, a saúde era garantida, os pais eram eternos e o mundo parecia obedecer à nossa vontade. Achávamos que éramos donos do destino, e que os mais velhos eram apenas chatos. Hoje não me sinto um “chato”, mas sinto-me inquieto. Dou valor a coisas que antes me passavam ao lado: um “como estás?”, uma mensagem inesperada, um telefonema simples. Pequenos gestos que, hoje, pesam mais do que horas de conversa vazia, muitas vezes passadas em silêncio, cada um fechado no seu telemóvel.
E talvez seja isso que mais me perturba: estamos cada vez mais juntos… mas menos presentes. O telemóvel tornou-se o centro de tudo, mas pergunto-me se ainda sabemos comunicar. Porque comunicar não é só escrever ou reagir — é olhar, interromper, ouvir, rir fora de tempo. E isso está a desaparecer. Às vezes questiono-me, com alguma inquietação, se as próximas gerações saberão o que é verdadeira intimidade fora de um ecrã. Ao mesmo tempo, olho mais para os meus, para os que estão perto e para os que estão longe, e percebo que um simples “olá” da família tem hoje um valor imenso. Talvez porque finalmente entendi aquilo que sempre soube, mas nunca quis aceitar: não somos eternos.
Essa consciência traz limites. Percebo, cada vez mais, que não posso ajudar todos, que não controlo tudo, que há “nãos” e “nuncas” que pesam. E isso inquieta. Tal como me inquieta olhar para o mundo e ver sinais que já vi antes — crises que parecem regressar, problemas que se repetem — mas sobre os quais quase ninguém quer falar com seriedade. Afastei-me da política, não por desistência, mas por cansaço. Hoje procuro mais paz do que confronto. Mas continuo preocupado com o futuro — não com nomes ou figuras, mas com ideias. Com o rumo de uma sociedade que envelhece e que, paradoxalmente, parece cada vez menos preparada para cuidar dos seus.
Vivemos num tempo em que envelhecer corre o risco de se tornar um incómodo. Onde pedir ajuda, depois de uma vida de trabalho, pode ser um caminho duro e solitário. Onde demasiadas pessoas são encontradas sozinhas, sem vida, em casas que já ninguém visita. Fala-se muito de soluções, mas poucas chegam. E as que existem são, muitas vezes, inacessíveis. Criam-se figuras como o “cuidador informal”, mas esquecem-se de dizer o essencial: cuidar não é um conceito, é um ato de amor. É estar, é dar, é suportar — muitas vezes sem retorno, sem reconhecimento, apenas com a recompensa de um sorriso.
Lembro-me da minha amiga, a Kika, que falava da alegria de cuidar de uma senhora acamada aquando o seu estágio de TAS no hospital. Do entusiasmo que sentia nos gestos mais simples, até numa muda de fralda. E o que guardou não foi o cansaço, mas a alegria da senhora que até fazia dançar os braços em alegria.... Isso é humanidade. E é disso que precisamos: de mais humanidade, de mais gente que se importe, de mais atenção aos outros. O Estado tem responsabilidades, claro, mas a sociedade também. Porque envelhecer não pode ser um fardo — tem de ser um caminho digno. Cheguei aos 50 e ando inquieto. Mas talvez esta inquietação seja, no fundo, um sinal de que ainda sinto, ainda me importo. E enquanto assim for, acredito que ainda há esperança...