Para quê tirar um curso superior?
Parece haver uma perceção generalizada de que os cursos superiores estão a contribuir menos para o sucesso financeiro dos seus diplomados. Os dados contrariam esta visão.
Segundo a OCDE, em Portugal, trabalhadores com ensino superior recebem 74% a mais do que os seus pares não licenciados. Na faixa etária dos 25 aos 34 anos, esta diferença desce, mas continua significativa, com uma diferença de 58%.
Apesar destes dados, a perceção persiste e tem efeitos negativos, podendo contribuir para uma diminuição da vontade de entrar no ensino superior, levando a uma potencial perda de capital humano geracional.
Os efeitos da educação vão muito além do rendimento, incluindo impactos em saúde, participação cívica e literacia. Apesar da educação em Portugal estar a melhorar, continuamos com um défice educacional relevante, com 46% dos adultos estimados como tendo baixos níveis de literacia.
Importa também analisar o porquê de esta perceção existir. Tivemos uma forte compressão salarial, próxima do salário mínimo, e, em paralelo com o aumento dos preços da habitação, criou uma perspetiva pouco otimista para qualquer jovem. Associado a este fator, ser licenciado deixou de ser garantia que o trabalhador irá receber um valor superior ao salário mínimo, quando ingressar no mercado de trabalho.
No entanto, apesar de termos tantos licenciados que entram no mercado de trabalho com salário mínimo, as empresas continuam a reportar fortes dificuldades em contratar especialistas com ensino superior. O problema não é falta de competências, mas desalinhamento com o mercado.
Isto pode ser um desajustamento de competências por área, em que Portugal tem uma percentagem mais elevada do que a média da UE de trabalhadores a trabalhar fora da sua área de formação, ou pode ser um desajustamento geracional, em que as empresas precisam de trabalhadores com ensino superior e décadas de experiência. Em Portugal, isto é mais difícil de resolver, dado que a massificação do ensino superior ainda é relativamente recente.
O reforço da formação ao longo da vida ajudaria a reduzir o desajustamento de competências, permitindo a requalificação de competências e a transferência de profissionais entre setores.
Este ponto aplica-se também a não licenciados e quadros intermédios, sendo diferente optar por uma carreira técnica ou simplesmente deixar de estudar sem um plano. A formação ao longo da vida permite capacitar quem não tem planos, reduzir a falta de técnicos intermédios e aumentar a diversidade de futuros profissionais.
Perceção e realidade não estão, portanto, totalmente desalinhadas, mas operam em escalas diferentes: a educação continua a ter um retorno claro ao longo da vida, enquanto o mercado de trabalho penaliza sobretudo o início de carreira e revela um desajustamento persistente entre qualificações e funções. A solução não é menos educação, mas melhor alinhamento entre formação, economia e o mercado de trabalho.