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Nos bastidores do palco

O que constitui um perigo para as democracias são as pessoas desvalorizarem a importância das eleições

Todos nós sabemos que o poder corrompe. Daí ser importante a renovação de poder e o escrutínio popular através de eleições para a renovação da legitimidade política.

É por isto que se afirma que a democracia é o melhor regime político por permitir a retirada de “tiranos” do poder através de eleições livres. Se elas se realizam e se, eventualmente, são frequentes numa determinada região, ou país, num determinado período, é porque existe alguma crise política, ou ocorrência de eventos, que exige o escrutínio popular para mudar a liderança política necessária, ou legitimar os que estão no poder para a sua continuação.

Bons regimes democráticos têm previstas regras para a convocação de eleições antecipadas aquando da existência de alguns problemas. Para evitar a instabilidade política, existem regras que definem as condições para a realização de eleições antecipadas e assegurar a confiança em quem nos governa. Inevitavelmente, parlamentos com maioria de um só partido garantem uma “governação à vontadinha” e impedem qualquer eleição antecipada, independentemente da situação crítica que possa ocorrer.

Toda a literatura de ciência política argumenta a importância da realização de eleições como base de todo o sistema político democrático. Portanto, o que “mata as democracias” não são o “excesso de eleições”. São antes a falta de confiança na governação, a desconfiança da existência de peculato, corrupção e abuso de poder. O que constitui um perigo para as democracias são as pessoas desvalorizarem a importância das eleições, porque é através dos resultados das eleições que se forma o governo.

A história mundial está repleta de exemplos de políticos que, estando no poder e viciados no poder, acabam por alterar o sistema para se perpetuarem no poder. Esta não é uma prática do século passado e nenhum país está isento desta prática. Deveríamos todos nos perguntarmos porquê, no passado, alguns da nossa terra defenderam a limitação de mandatos para determinadas situações com a argumentação de que haveria que garantir a renovação partidária e, agora, defendem o fim desta regra para liderarem sem qualquer limitação de tempo. É um sinal de alerta e nos bastidores do palco muita coisa não se torna pública.

Este fim de semana realiza-se o Congresso Regional do PSD-Madeira sem a presença de representantes do PSD-Nacional. O Presidente regional afirmou que não convidou. Mas, todos nós sabemos que nem toda a verdade vem a público, sobretudo na política. Miguel Albuquerque não quis convidar, ou os representantes nacionais sentiam-se incómodos estando presente no Congresso? A verdade só sabe quem está por detrás do palco. Mas isto é um sinal de que as relações entre o partido nacional e o partido regional já conheceram melhores dias.

Votações unânimes e todos a uma só voz, nesta fase do campeonato, com toda a história recente no partido, não constituem nenhuma surpresa, nem são grande proeza. Proeza é ter conseguido deixar o partido refém de um só líder. Por debaixo do tapete, muitas jogadas já se planeiam. Quem tem olhos que veja.

Há algum tempo disseram-me uma frase que reconheço ser uma prática frequente dos mais medíocres – a escolha de uma equipa não é feita com base no mérito, mas com base na inteligência de quem os escolhe que não consegue lidar com a competência e os valores de outros mais capazes. Quanta verdade numa só frase.

Em todos os partidos e organizações existem pessoas de mérito e de bom carácter. O problema é que, muitas vezes, este potencial humano é preterido pelos “jogadores” especialistas na arte da manipulação com tiques de conversação de superioridade.

Ainda sobre o futuro do PSD-Madeira, há uns dias, veio a público a notícia que o PSD-Madeira colocou à venda vários imóveis, inclusive a sua sede na Rua dos Netos. Cumprir com obrigações financeiras com a banca? Serão resultantes de dívidas para financiar as últimas campanhas eleitorais? Indubitavelmente há falta de dinheiro senão não ponderariam alienar bens imóveis. Pelo que ela representa, colocar a sede da Rua dos Netos à venda poderá indiciar um problema maior do que se imagina. E se é assim, então, como serão feitas as campanhas das próximas eleições? Não há máquina partidária que resista à falta de dinheiro. O futuro será “engenharia financeira” com privados à vista? Ou muito me engano ou o Ministério Público terá muito trabalho de investigação na Madeira. O tempo dar-nos-á as respostas, por enquanto, ocultas.

No palco da política, tudo é festa, banquetes, harmonia e muito espetáculo ainda que nos bastidores a verdade possa ser outra.