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O retrato de uma governação falhada

O tratamento dado aos nossos idosos é o barómetro da nossa saúde moral

Governar é fundamentalmente antecipar o amanhã para proteger os mais vulneráveis hoje. Na Madeira, o que assistimos no setor da terceira idade não é competência política, mas sim uma gestão de mercearia feita “em cima do joelho” e cheia de remendos, onde o desprezo pelo planeamento estratégico e a falta de visão de futuro, associada a uma boa dose de negligência, condenou uma geração inteira ao mais profundo desamparo.

Os números não mentem e são o espelho de um fracasso civilizacional. Temos cerca de 300 idosos a morar em camas e macas hospitalares. Seres humanos que são mantidos em enfermarias e em corredores de hospital, porque foram esquecidos por quem nos governa. Um hospital não é uma residência; é um local de cura. Manter um idoso a residir num ambiente hospitalar por falta de retaguarda social é uma forma de violência institucional revoltante, expondo-os ao isolamento, à depressão e a riscos de saúde.

Fora dos hospitais, a tragédia silenciosa multiplica-se: mais de 1400 idosos aguardam em listas de espera por uma vaga num lar ou por qualquer solução de amparo digna. 1400 vidas suspensas que a máquina partidária do regime só se lembra que existem na hora da caça ao voto. Este cenário não surgiu por acaso; é o resultado de décadas de governação à vista e da imposição de um modelo de desenvolvimento que não serve a qualidade de vida dos madeirenses.

É imperdoável que, num momento de carência extrema, o Governo tenha perdido milhões de euros do PRR destinados precisamente à construção de lares e respostas sociais. Perder fundos europeus por incapacidade de execução, enquanto centenas de idosos são abandonados em corredores de hospitais, é um crime de gestão e um insulto à dignidade humana.

O erro não é apenas de execução, é também de conceito. Os governantes madeirenses não estudaram, não evoluíram. Mantêm-se focados num modelo arcaico de institucionalização total, onde a única resposta parece ser “fechar” o idoso num lar. Ignoraram-se modelos modernos de apoio domiciliário especializado e de outras soluções multidisciplinares seniores que promovem a autonomia, a qualidade de vida e a proteção. Limitaram-se apenas a criar sistemas de entretenimento, de ocupação e de distração dos idosos que, apesar de importantes, não são respostas para o problema estrutural. Não se preparou o futuro; conheciam a realidade do envelhecimento populacional da Região, todavia, o desafio demográfico nunca foi uma prioridade, governaram sempre com medidas avulso, algumas eternamente provisórias e, para esconder a essa ineficácia, soltavam o rolo compressor da propaganda do regime.

O tratamento dado aos nossos idosos é o barómetro da nossa saúde moral. Ao atirar 300 pessoas para o limbo das altas problemáticas e ignorar uma lista de espera de 1400 almas, o governo demonstra que, para si, o idoso deixou de ser um cidadão para passar a ser um “problema logístico”. A dignidade não pode ser gerida ao sabor de calendários e interesses partidários. Exige-se uma visão estratégica que os governos do PSD teimam em não assumir.