A presença do Lidl na Madeira ajudaria a resolver o escoamento dos produtos agrícolas?
No último domingo, realizou-se mais uma Festa do Limão, na freguesia da Ilha, no concelho de Santana. Como regularmente acontece, o certame foi visitado por um vasto conjunto de personalidade e organizações, contando-se entre elas partidos políticos, do poder e da oposição regionais.
Um dos partidos que o fizeram foi o JPP. O DIÁRIO noticiou essa deslocação, numa notícia com o título ‘JPP defende aposta na agricultura e valorização do limão regional em Santana’ e a entrada ‘“Prioridade devia ser investir no limão e não na construção de campos de golfe”, diz Élvio Sousa’.
Entre os vários comentários suscitados por essa publicação na plataforma do DIÁRIO, em dnoticias.pt, conta-se o de A. P. Roque, que associou uma eventual presença da cadeia de supermercados Lidl na Madeira, à resolução do problema de escoamento da produção regional, não se limitando, na formulação feita, ao limão.
Terá razão o leitor e quem, como ele, associa a presença da muitas vezes anunciada e nunca concretizada vinda da cadeia Lidl para a Região à resolução dos problemas de escoamento dos produtos agrícolas?
A verificação da veracidade da afirmação será feita com recurso à análise das políticas de aquisições de produtos agrícolas, por parte da Lidl e das outras duas grandes cadeias de supermercados em acção no território português e com presença na Madeira, Continente e Pingo Doce. De fora deste fact check ficam as questões relacionadas com responsabilidades sobre os atrasos na vinda do Lidl para a Região.
Comecemos pela parte da afirmação que tem sustentação. Como explica o Lidl Portugal no seu sítio oficial na Internet, a empresa trabalha com fornecedores nacionais, criou o projecto ‘Da Minha Terra’ para pequenos produtores nacionais e regionais e admite a venda regional ou nacional dos produtos seleccionados, consoante a capacidade de fornecimento do produtor. Na mesma informação, o Lidl refere que os candidatos devem ter, pelo menos, certificação HACCP e que a sua entrada depende de avaliação prévia. Ou seja, é verdade que a cadeia faz parcerias com produtores e que pode integrar produtos regionais no seu sortido.
Também é verdade que, quando anunciou a expansão para a Madeira, em 2021, o Lidl afirmou, no seu portal institucional, que a entrada na Região visava dinamizar a economia local, incluindo “o estabelecimento de parcerias com fornecedores locais”, e chegou a estimar compras a fornecedores madeirenses na ordem dos 20 milhões de euros. A ideia de ligação a produtores regionais não foi, portanto, inventada, nem deduzida pelo leitor do DIÁRIO.
O problema está no passo seguinte. Sugerir que a presença do Lidl resolveria, por si, o problema do escoamento da produção agrícola regional. Essa conclusão não decorre automaticamente dos factos referidos antes. Desde logo, porque as duas grandes cadeias já implantadas na Madeira afirmam, igualmente, trabalhar com produção nacional e com fornecedores locais. O Pingo Doce diz, no seu sítio oficial, que cria relações de parceria, duradouras e de qualidade, com produtores de confiança para levar às lojas o melhor da produção nacional. O grupo Jerónimo Martins, dono da marca, explica no Relatório e Contas de 2024 que se mantém firme no compromisso de assegurar que pelo menos 80% dos produtos alimentares comercializados em cada país provêm de fornecedores locais e acrescenta que, em Portugal, o Pingo Doce adquiriu, em 2024, mais de 14 mil toneladas de cereja, maçã e quivi de produção nacional, além de ter reforçado o sortido de perecíveis especializados com produtos nacionais.
Quanto ao Continente, a própria empresa explica, em relatório oficial, que o Clube de Produtores Continente nasceu em 1998 para apoiar a produção nacional, que os fornecedores têm de cumprir requisitos rigorosos de certificação e que o modelo assenta em apoio estruturado à produção e na integração dessa produção na cadeia comercial. Nesse mesmo documento, o Continente refere ainda centenas de membros e compras de grande dimensão a produtores nacionais.
Assim, a ideia de que só o Lidl faria “protocolos com produtores regionais” não resiste à comparação com a informação oficial das outras cadeias. Continente e Pingo Doce também mantêm relações organizadas e duradouras com produtores e fornecedores locais. A diferença não está na existência ou não dessas relações, mas no modo como são organizadas. Trata-se, em regra, de cadeias de abastecimento centralizadas, com exigências de qualidade, regularidade, escala e certificação, e não de compras avulsas, loja a loja, a qualquer pequeno agricultor. No caso do Lidl, aliás, isso fica claro quando a empresa subordina a entrada dos produtos à capacidade de fornecimento e ao cumprimento de requisitos técnicos.
Daqui resulta uma dedução segura. A eventual entrada do Lidl na Madeira poderia aumentar a concorrência no retalho e abrir mais uma porta comercial a produtores regionais. Mas não permite concluir, com segurança, que resolveria o problema do escoamento. Esse problema depende, também, da escala produtiva, da regularidade do abastecimento, da organização dos produtores, da logística e da capacidade de cumprir os padrões exigidos pelas grandes superfícies.
Pelo exposto, valíamos a afirmação do leitor como imprecisa. É correcta na parte em que atribui ao Lidl a prática de parcerias com produtores regionais e nacionais. Torna-se, porém, excessiva quando sugere que a sua presença bastaria para resolver o escoamento da produção agrícola madeirense, dando ainda a entender que os operadores já presentes – Continente e Pingo Doce - não compram local, algo que a informação oficial de ambos contraria.