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Explicador Madeira

A dopamina digital e o nosso comportamento online

Abrimos uma aplicação ‘só por um minuto’ e, quando nos apercebemos, já passaram 20. Verificamos as notificações sem pensar. Fazemos ‘scroll’ de forma quase automática. Estes comportamentos tornaram-se comuns e têm uma explicação científica

Nos últimos anos, alguns especialistas têm usado a expressão ‘dopamina digital’ para descrever a forma como as tecnologias e as redes sociais exploram os mecanismos de recompensa do cerébro e tornam o uso do telemóvel particularmente difícil de controlar.

O que é a dopamina?

A dopamina é um neurotransmissor, uma substância química do cérebro, associada à motivação, ao prazer e à aprendizagem. Está directamente ligada ao chamado Sistema de recompensa cerebral, que nos incentiva a repetir comportamentos importantes para a sobrevivência, como comer ou socializar.

Durante muito tempo, considerava-se que a dopamina estava apenas ligada ao prazer. Hoje sabe-se que o seu papel é mais complexo e está sobretudo associada à antecipação da recompensa, ou seja, à expectativa de algo positivo.

Dopamina digital

O termo ‘dopamina digital’ não é um conceito médico formal, mas é amplamente utilizado para explicar a forma como as tecnologias digitais activam repetidamente o sistema de recompensa do cérebro.

Cada vez que recebemos um ‘gosto’ numa publicação, uma mensagem ou até mesmo uma simples notificação, o cérebro liberta pequenas quantidades de dopamina. Isso cria uma sensação de recompensa que nos leva a querer repetir o comportamento, neste caso, voltar a pegar no telemóvel.

A dificuldade em parar

Um dos principais motivos está na forma como as plataformas digitais são desenhadas. Muitas das aplicações que conhecemos utilizam um mecanismo semelhante ao das máquinas de jogo: recompensas imprevisíveis. Nem sempre há algo novo ou interessante, mas às vezes há. E é essa incerteza que mantém o utilizador envolvido.

Este fenómeno está relacionado com o chamado reforço intermitente, um princípio estudado na psicologia comportamental, que mostra que recompensas imprevisíveis são especialmente eficazes a criar hábitos. Além disso, o ‘scroll’ infinito, os vídeos curtos e as notificações constantes eliminam pontos naturais de pausa, tornando mais difícil interromper o uso.

O impacto no cérebro e no comportamento

A exposição constante a estímulos digitais pode alterar a forma como o cérebro responde à recompensa.

Há estudos que indicam que o consumo frequente de conteúdos rápidos e altamente estimulantes pode reduzir a capacidade de concentração, aumentar a impulsividade e dificultar a execução de tarefas que exigem atenção prolongada. Isto acontece porque o cérebro se habitua a recompensas rápidas e frequentes, tornando actividades mais lentas, como estudar ou ler, menos estimulantes.

É um vício?

O uso excessivo de tecnologia não é, por si só, classificado como uma doença na maioria dos casos. No entanto, alguns comportamentos podem aproximar-se de padrões aditivos, como:

  • dificuldade em controlar o tempo de utilização
  • necessidade constante de verificar o telemóvel
  • sensação de ansiedade quando não há acesso

A Organização Mundial da Saúde (OMS) já reconhece perturbações relacionadas com comportamentos digitais, como o uso problemático de videojogos, o que reforça a preocupação crescente com estes hábitos.

É possível 'reprogramar' os nossos hábitos?

Especialistas defendem que não é necessário eliminar a tecnologia, mas sim redefinir a relação com ela. Algumas estratégias incluem desactivar as notificações que não são essenciais, estabelecer limites de utilização para aplicações, criar momentos no quotidiano sem ecrãs e substituir o ‘scroll’ automático por automático por actividades mais intencionais. Estas pequenas mudanças ajudam o cérebro a reduzir a dependência de estímulos constantes e a recuperar a capacidade de foco.

A chamada ‘dopamina digital’ ajuda a explicar o porquê de ser tão fácil ficar preso ao telemóvel e sair dele exige um esforço consciente.

Num mundo desenhado para captar a nossa atenção, compreender como funciona o cérebro torna-se essencial para recuperar o controlo sobre o tempo e os hábitos.