Nos últimos anos, alguns especialistas têm usado a expressão ‘dopamina digital’ para descrever a forma como as tecnologias e as redes sociais exploram os mecanismos de recompensa do cerébro e tornam o uso do telemóvel particularmente difícil de controlar.
O que é a dopamina?
A dopamina é um neurotransmissor, uma substância química do cérebro, associada à motivação, ao prazer e à aprendizagem. Está directamente ligada ao chamado Sistema de recompensa cerebral, que nos incentiva a repetir comportamentos importantes para a sobrevivência, como comer ou socializar.
Durante muito tempo, considerava-se que a dopamina estava apenas ligada ao prazer. Hoje sabe-se que o seu papel é mais complexo e está sobretudo associada à antecipação da recompensa, ou seja, à expectativa de algo positivo.
Dopamina digital
O termo ‘dopamina digital’ não é um conceito médico formal, mas é amplamente utilizado para explicar a forma como as tecnologias digitais activam repetidamente o sistema de recompensa do cérebro.
Cada vez que recebemos um ‘gosto’ numa publicação, uma mensagem ou até mesmo uma simples notificação, o cérebro liberta pequenas quantidades de dopamina. Isso cria uma sensação de recompensa que nos leva a querer repetir o comportamento, neste caso, voltar a pegar no telemóvel.
A dificuldade em parar
Um dos principais motivos está na forma como as plataformas digitais são desenhadas. Muitas das aplicações que conhecemos utilizam um mecanismo semelhante ao das máquinas de jogo: recompensas imprevisíveis. Nem sempre há algo novo ou interessante, mas às vezes há. E é essa incerteza que mantém o utilizador envolvido.
Este fenómeno está relacionado com o chamado reforço intermitente, um princípio estudado na psicologia comportamental, que mostra que recompensas imprevisíveis são especialmente eficazes a criar hábitos. Além disso, o ‘scroll’ infinito, os vídeos curtos e as notificações constantes eliminam pontos naturais de pausa, tornando mais difícil interromper o uso.
O impacto no cérebro e no comportamento
A exposição constante a estímulos digitais pode alterar a forma como o cérebro responde à recompensa.
Há estudos que indicam que o consumo frequente de conteúdos rápidos e altamente estimulantes pode reduzir a capacidade de concentração, aumentar a impulsividade e dificultar a execução de tarefas que exigem atenção prolongada. Isto acontece porque o cérebro se habitua a recompensas rápidas e frequentes, tornando actividades mais lentas, como estudar ou ler, menos estimulantes.
É um vício?
O uso excessivo de tecnologia não é, por si só, classificado como uma doença na maioria dos casos. No entanto, alguns comportamentos podem aproximar-se de padrões aditivos, como:
- dificuldade em controlar o tempo de utilização
- necessidade constante de verificar o telemóvel
- sensação de ansiedade quando não há acesso
A Organização Mundial da Saúde (OMS) já reconhece perturbações relacionadas com comportamentos digitais, como o uso problemático de videojogos, o que reforça a preocupação crescente com estes hábitos.
É possível 'reprogramar' os nossos hábitos?
Especialistas defendem que não é necessário eliminar a tecnologia, mas sim redefinir a relação com ela. Algumas estratégias incluem desactivar as notificações que não são essenciais, estabelecer limites de utilização para aplicações, criar momentos no quotidiano sem ecrãs e substituir o ‘scroll’ automático por automático por actividades mais intencionais. Estas pequenas mudanças ajudam o cérebro a reduzir a dependência de estímulos constantes e a recuperar a capacidade de foco.
A chamada ‘dopamina digital’ ajuda a explicar o porquê de ser tão fácil ficar preso ao telemóvel e sair dele exige um esforço consciente.
Num mundo desenhado para captar a nossa atenção, compreender como funciona o cérebro torna-se essencial para recuperar o controlo sobre o tempo e os hábitos.