Nos últimos meses, muitos portugueses passaram a partilhar a mesma experiência. O telemóvel toca, surge um número aparentemente nacional e, do outro lado, alguém se apresenta como funcionário do banco, da polícia, de uma operadora de telecomunicações ou até mesmo mantém-se em silêncio. Rapidamente, percebe tratar-se de uma tentativa de burla.
As chamadas fraudulentas, conhecidas como vishing (fraude por voz), estão a aumentar em Portugal e tornaram-se uma das formas de crime digital com crescimento mais rápido, segundo alertas recorrentes da Polícia Judiciária e do Centro Nacional de Cibersegurança.
Mas porque estão estas chamadas a tornar-se tão frequentes? E como conseguem os burlões parecer cada vez mais credíveis?
Um crime simples, barato e difícil de rastrear
Ao contrário do que muitos imaginam, a maioria destas burlas não exige tecnologia sofisticada. Hoje, qualquer pessoa com acesso à internet pode utilizar sistemas de chamadas online que permitem contactar milhares de números em poucos minutos e com custos reduzidos.
Os criminosos recorrem frequentemente a plataformas internacionais de voz sobre internet (VoIP), que permitem mascarar a origem real da chamada. Assim, o número que aparece no ecrã pode parecer português ou até coincidir com o de uma instituição verdadeira.
Este fenómeno chama-se spoofing e é a falsificação do número de telefone exibido ao destinatário.
Segundo especialistas em cibersegurança, esta técnica tornou-se comum porque a infraestrutura telefónica global foi criada numa época em que a autenticação de chamadas não era uma prioridade.
Tem sido mais recorrente agora porquê?
Há várias razões que explicam o crescimento recente. Primeiro, a digitalização acelerada dos serviços bancários e públicos criou mais oportunidades para fraude. Quanto mais operações são feitas online, como pagamentos, autenticações ou transferências, maior é o potencial de exploração por criminosos.
Segundo, as bases de dados com contactos telefónicos circulam cada vez mais na internet, muitas vezes obtidas através de fugas de dados ou recolhidas em redes sociais e formulários online.
Terceiro, a própria eficácia do método incentiva a sua repetição. Basta que uma pequena percentagem das pessoas atenda e confie para que o esquema seja lucrativo.
De acordo com alertas divulgados pela DECO Proteste, os burlões exploram sobretudo momentos de ansiedade, alegadas transações suspeitas, bloqueios de conta ou urgência em evitar perdas financeiras.
Como funciona a burla passo a passo
Apesar das variações, o esquema segue normalmente um padrão semelhante:
- Contacto inicial - o burlão apresenta-se como um banco, operador ou autoridade;
- Urgência - afirma existir uma fraude em curso ou risco imediato;
- Pedido de validação - solicita códigos SMS, dados pessoais ou acesso remoto ao telemóvel;
- Transferência de dinheiro - a vítima é levada a autorizar operações e acredita estar a proteger a conta.
O elemento central é psicológico e passa por convencer a vítima de que está a agir para evitar um problema maior.
Cada vez mais credíveis
As chamadas tornaram-se mais sofisticadas por três motivos principais:
- Os burlões utilizam informação pública das vítimas (nome, banco provável, localização);
- Scripts profissionais imitam linguagem institucional;
- Algumas redes criminosas operam verdadeiros centros de chamadas organizados.
Em certos casos, os criminosos já combinam chamadas telefónicas com mensagens SMS falsas que imitam comunicações oficiais, aumentando a sensação de legitimidade.
A Autoridade Nacional de Comunicações tem alertado que a falsificação de números dificulta a prevenção técnica imediata, exigindo cooperação internacional entre operadores.
Quem são os principais alvos?
Embora os idosos continuem a ser um alvo frequente, as autoridades indicam que o perfil das vítimas está a mudar. Adultos activos digitalmente e que estejam habituados a aplicações bancárias e a efectuar pagamentos online, também estão a ser enganados.
A familiaridade com tecnologia não elimina o risco. Pelo contrário, a confiança em processos digitais pode facilitar decisões rápidas sob pressão.
Como agir quando se recebe uma chamada suspeita
As autoridades portuguesas repetem três recomendações essenciais:
- Desconfiar sempre de pedidos urgentes envolvendo dinheiro ou códigos;
- Nunca fornecer códigos enviados por SMS, mesmo que o interlocutor diga ser do banco;
- Desligar e contactar directamente a instituição através do número oficial.
Bancos e forças policiais sublinham que nenhuma entidade legítima solicita códigos de autenticação ou transferências por telefone. Em caso de tentativa de fraude, a recomendação é denunciar à Polícia Judiciária e bloquear o número.
Um problema que deverá continuar
Há especialistas que admitem que o fenómeno dificilmente desaparecerá a curto prazo. A combinação de baixo custo para os criminosos, alcance massivo e dificuldades técnicas de bloqueio torna as chamadas fraudulentas um desafio global. Enquanto os operadores e autoridades desenvolvem mecanismos de autenticação mais robustos, a principal defesa continua a ser a literacia digital dos utilizadores.
Num contexto cada vez mais digital, atender o telefone deixou de ser um gesto automático e passou a exigir ainda mais cautela.