Retirada israelita depende do desarmamento do Hamas
O alto representante do Conselho de Paz para Gaza, Nickolay Mladenov, sublinhou ontem que a reconstrução do enclave palestiniano e a retirada militar israelita está dependente do desarmamento do Hamas e de outros grupos armados.
Na primeira vez que discursou perante o Conselho de Segurança da ONU como representante do Conselho de Paz, Nickolay Mladenov apresentou um relatório sobre a implementação da resolução 2803, de novembro de 2025, que apoiou o plano do Presidente norte-americano, Donald Trump, para acabar com a guerra em Gaza e saudou o estabelecimento do Conselho de Paz como uma "administração de governança de transição" no enclave.
Perante o Conselho de Segurança, Mladenov afirmou que a reconstrução de Gaza só poderá ser iniciada após a certificação das etapas de desarmamento do Hamas e outras milícias.
"A estrutura que desenvolvemos e apresentamos assenta em cinco princípios. O primeiro é a reciprocidade", explicou, sublinhando que o desarmamento do Hamas ocorre em paralelo com a retirada gradual das formas israelitas de Gaza.
"Isto é fundamental para a credibilidade de todo o processo. O segundo é a sequência. As armas mais perigosas, os 'rockets', as munições pesadas, os engenhos explosivos e as espingardas de assalto pertencentes aos grupos armados são abordados em primeiro lugar. Os túneis devem ser neutralizados. As armas pessoais serão tratadas posteriormente através de um processo de registo e recolha", acrescentou.
Em terceiro lugar, surge a verificação, com Mladenov a indicar que o cumprimento de todas as disposições precisará de ser monitorizado e verificado, e que a reconstrução só poderá ser iniciada após a certificação das etapas de desarmamento.
"Esta é a ligação que dá força motriz à estrutura: O povo de Gaza quer a reconstrução, e a reconstrução exige o desarmamento", insistiu o diplomata búlgaro.
Em quarto, "a estrutura dirige-se às pessoas, e não apenas às armas", declarou, afirmando que existem caminhos para que os indivíduos atualmente afiliados a grupos armados regressem à vida civil com dignidade através de acordos estruturados de amnistia e programas de reintegração.
Em quinto lugar, o alto representante explicou que o seu gabinete tem autoridade para conceder prorrogações de prazo quando as partes demonstrem boa-fé.
"Este é um processo gerido com flexibilidade inerente, porque a realidade no terreno nem sempre corresponde aos prazos estabelecidos. Não entrarei em detalhes operacionais sobre os prazos ou o progresso das nossas discussões com as partes. O acordo sobre a implementação da estrutura requer espaço, e peço a todos que respeitem esse espaço", pediu.
"O que posso dizer ao Conselho é o seguinte: a estrutura existe. Foi aprovada por todos os mediadores, foi apresentada às partes e o empenho em torno da mesma é muito sério", garantiu.
Sobre a situação na Faixa de Gaza, afirmou que "continua muito, muito difícil", apesar das melhorias alcançadas através da primeira fase do acordo de cessar-fogo.
"Os serviços essenciais estão a operar com uma fração da capacidade pré-guerra. O sistema de saúde está em colapso. Não há economia a funcionar", descreveu.
Ao delinear três prioridades imediatas, Mladenov observou que a primeira é que "a passagem de Rafah deve permanecer aberta e permitir que mais pessoas entrem e saiam de Gaza", alertando que "qualquer restrição à sua operação impede diretamente a implementação da segunda fase do cessar-fogo".
Sobre a ajuda humanitária, afirmou que o "fluxo atual não é adequado à dimensão da necessidade", salientando que "o número de camiões autorizados a transportar mercadorias para Gaza aumentará em breve".
Incentivou ainda à aceleração de soluções de habitação temporária, afirmando que "mais de dois milhões de pessoas não podem continuar a suportar condições de vida indignas".
Afirmando que "nenhum plano é perfeito", Mladenov insistiu na implementação integral do acordo de cessar-fogo e argumentou que este é "o único documento que conecta o desarmamento, a reconstrução, a transição civil e a reunificação das instituições palestinianas numa única sequência".
Em janeiro, o diplomata búlgaro Nickolay Mladenov, ex-enviado da ONU para o Médio Oriente, foi escolhido para servir como alto representante do Conselho de Paz de Donald Trump, que tem como objetivo supervisionar o processo de paz em Gaza.