ONU alerta para risco de "mundo se habituar" às restrições que as mulheres afegãs sofrem
A ONU alertou ontem que um dos maiores riscos que as mulheres afegãs enfrentam é a possibilidade de "o mundo se habituar às restrições" que as mesmas sofrem no próprio país.
"Quero destacar um dos maiores riscos que as mulheres afegãs enfrentam, que é o risco de o mundo se habituar às restrições que as mulheres enfrentam aqui. Quando começamos a aceitar isto como normal, deixamos de acreditar que a situação pode mudar e deixamos de ver a mudança", declarou ontem Susan Ferguson, representante da ONU Mulheres no Afeganistão.
Numa declaração aos jornalistas, feita por videoconferência através da capital afegã, Cabul, Susan Ferguson apelou à comunidade internacional, incluindo aos decisores reunidos em Nova Iorque esta semana para a Comissão sobre o Estatuto da Mulher, que não classifiquem a situação enfrentada pelas afegãs como "normal".
"Apesar de todos os obstáculos e restrições, as mulheres afegãs continuam a demonstrar uma coragem e uma determinação extraordinárias, e nós também precisamos de as demonstrar. A mudança ainda é possível, mas só se o mundo continuar a apoiar as mulheres afegãs", insistiu.
A representante da ONU relembrou que, para as mulheres e meninas no Afeganistão, 2026 já se anunciava como um ano extremamente difícil.
Contudo, agora, com o conflito no Médio Oriente e as hostilidades em curso com o Paquistão, muitas enfrentam ainda mais traumas e dificuldades.
Na noite anterior, um ataque aéreo atribuído às forças paquistanesas atingiu um centro de apoio a toxicodependentes na capital afegã e matou mais de 400 pessoas.
Desde o final de fevereiro, o Afeganistão está mergulhado numa espiral dupla de violência: a oeste, a guerra desencadeada pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão; no leste, uma escalada militar com o Paquistão, que acusa os talibãs de abrigar combatentes de um grupo armado suspeito de realizar ataques mortais em solo paquistanês.
Trocas de tiros, ataques aéreos paquistaneses e encerramento de fronteiras estão a multiplicar-se.
No leste do país, os números mostram a dimensão do choque: mais de 64 mil pessoas foram afetadas pela escalada militar em quatro distritos fronteiriços, "pouco mais da metade delas mulheres e meninas", segundo Ferguson.
Algumas já haviam deixado as suas casas no último ano, principalmente após o sismo de agosto de 2025.
"Para muitas mulheres, esta é a segunda, ou mesmo a terceira vez que são forçadas a fugir no último ano", enfatizou.
Nas estradas, essas mulheres e meninas temem "violência ou exploração", enquanto o acesso a serviços básicos -- saúde, água, meios de subsistência -- entra em colapso mais uma vez.
Por outro lado, o país observa o regresso de pessoas vindas do Irão.
A ONU projeta que mulheres, sozinhas ou com crianças, se aglomerem numa fronteira já sobrecarregada pela ofensiva israelo-americana contra Teerão, obrigando as agências humanitárias a prepararem-se para um novo fluxo migratório.
Além da violência militar, há uma crescente pressão económica.
"As mulheres e meninas no Afeganistão simplesmente não podem suportar outro choque económico", alertou a representante da ONU Mulheres.
Para 2026, a ONU já projetava que 10,7 milhões de mulheres de meninas necessitariam de assistência humanitária.
Agora, o aumento dos preços ligado ao conflito na região tornará ainda mais difícil para as famílias, especialmente as chefiadas por mulheres, comprar alimentos e outros bens essenciais.
A ONU Mulheres está a tentar expandir a assistência financeira, distribuir 'kits' essenciais e apoiar pequenas atividades geradoras de rendimentos. Contudo, a agência enfrenta um défice de financiamento de 50%.
Mas é na área dos direitos que a situação é mais condenatória.
Susan Ferguson denunciou um recente decreto que "anula formalmente a igualdade entre homens e mulheres perante a lei" e autoriza formas de violência doméstica.
Em concreto, este texto permite que figuras masculinas -- maridos, pais -- exerçam "disciplina moral" fora das instituições judiciais, inclusive por meio de castigos corporais.
Também torna o acesso à justiça praticamente impossível: para que a violência seja reconhecida, uma mulher deve apresentar lesões visíveis e comparecer ao tribunal acompanhada por um guardião do sexo masculino - potencialmente o seu agressor.
"Estamos profundamente preocupados com este decreto", insistiu a funcionária da ONU, apelando às autoridades talibãs, que voltaram ao poder no Afeganistão em agosto de 2021, para que respeitem as obrigações internacionais do país em matéria de direitos humanos.