Portas defende que "a melhor coisa que Portugal pode fazer é preservar a sua estabilidade"
O antigo vice-primeiro-ministro Paulo Portas defendeu hoje que "a melhor coisa que Portugal pode fazer é preservar a sua estabilidade" num mundo "volátil e perigoso" e avisou que única forma de melhorar salários médios é aumentando a produtividade.
O antigo líder do CDS-PP foi hoje o orador convidado do jantar das jornadas parlamentares do PSD, que decorrem em Caminha (Viana do Castelo), e que contaram com a presença não previamente anunciada do presidente do PSD e primeiro-ministro, Luís Montenegro, e seis ministros do atual Governo.
À entrada, Montenegro não prestou declarações à comunicação social, dizendo que veio "ouvir o dr. Paulo Portas", remetendo para a sua intervenção de encerramento das jornadas, na quarta-feira, pela hora de almoço.
Numa intervenção de quase 50 minutos sobre a situação europeia e mundial, Paulo Portas, que foi vice-primeiro-ministro no Governo PSD/CDS-PP liderado por Pedro Passos Coelho, deixou, no final, apenas uma breve referência sobre a situação nacional.
"Perante um mundo assim, o que há de pensar um português? O mundo está muito volátil, frequentemente perigoso, às vezes irracional e é motivo de muita preocupação", afirmou.
E deixou um conselho: "A melhor coisa que Portugal pode fazer em nome dos seus interesses e dos portugueses é preservar a sua estabilidade, quando à nossa volta há tanta instabilidade", disse.
Antes, sobre a situação mundial, Portas já tinha deixado outro apelo à estabilidade, dizendo que nenhum dos principais problemas atuais se resolvem com "tweets ou posts" nas redes sociais: "Implicam compromisso entre forças políticas e constância de governos", insitiu.
Já sobre a posição da Europa em relação ao resto do mundo, defendeu que este continente deve concentrar-se "no que só depende de si", apontando como maiores desafios a demografia, a produtividade e a inovação.
Sobre a produtividade, alertou que a Europa já é menos produtiva do que os Estados Unidos e Portugal e Espanha ainda menos do que a média da União Europeia.
"Aquilo que me impressiona na sociedade portuguesa - com melhorias significativas nos últimos três anos - não é tanto que o salário mínimo seja baixo porque ele progrediu e progride todos os anos, é que o salário médio líquido seja demasiado próximo do salário mínimo", afirmou, lembrando que o salário médio líquido paga impostos e o mínimo não.
Numa altura em que o pacote laboral do Governo está no centro da agenda política, o antigo líder do CDS-PP defendeu que "a única maneira de melhorar o rendimento médio líquido dos portugueses é aumentando a produtividade".
"É uma oferta pelos trabalhadores e pelas empresas melhorar a produtividade, porque é a única maneira de nós melhorarmos o nosso salário médio líquido, onde eu concentraria as atenções que pudesse ter", aconselhou.
O antigo número dois do Governo admitiu que, se a Europa nada fizer para vencer os seus desafios, a começar pelo demográfico, pode juntar a um declínio geopolítico também um geoeconómico.
"Nós somos o continente mais velho do mundo, estamos com uma idade meridiana de 44,3 anos e nós portugueses temos 47,1 anos de idade meridiana. Não somos os piores, mas convém ter atenção", alertou.
Portas sublinhou que "é preciso muito tempo para inverter um declínio demográfico" e que tal só será possível com uma combinação de políticas e continuadas no tempo.
"É preciso que políticas de família, políticas fiscais, políticas de habitação, políticas de mercado laboral e políticas de imigração regulada estejam alinhadas nas estrelas com constância. Não é vêm uns e tiram isto, vêm aqueles e tiram aquele outro, porque senão nós não conseguimos vencer este declínio", disse.
Na sua intervenção, Portas passou em revista os principais desafios geopolíticos e fez questão de dizer que não é nem "um pessimista antropológico nem um otimista irritante", deixando uma palavra de esperança sobre um fim rápido do conflito no Irão.
"Acho que podemos dizer que o impacto geoeconómico foi tão grande nos primeiros dias que isso é um grande incentivo a que não se prolongue muito, em particular por parte das democracias que têm tem de enfrentar desafios eleitorais em 2026", disse, referindo-se em concreto ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tem eleições intercalares em novembro.
No jantar, estiveram também os ministros Paulo Rangel, Miguel Pinto Luz, Manuel Castro Almeida, Graça Carvalho, Carlos Abreu Amorim e Gonçalo Matias, além do secretário de Estado e dirigente do CDS-PP Telmo Correia, bem como os dois atuais deputados democratas-cristãos, Paulo Núncio e João Almeida.