Para levar a sério
Ontem de manhã uma eleitora esclarecida confidenciava-me que, mais do que um direito tantas vezes reclamado, votar era um dever para levar a sério, dado o estado a que o País chegou.
Da mesma forma pensaram os que, oriundos de várias famílias políticas, não se fiaram nas previsões, confirmando nas urnas a preferência por António José Seguro. Se a primeira volta serviu de teste intenso ao sistema político, mergulhado na fragmentação e no desgaste dos partidos tradicionais, logo, menos fiel a lealdades históricas e mais propenso ao voto de protesto, a segunda volta das eleições presidenciais na Madeira trouxe clareza inequívoca onde há três semanas havia ruído a mais. António José Seguro venceu com 56,17% dos votos, revertendo o resultado anterior e ficando mais de 12 pontos à frente de André Ventura. Mas mais do que uma vitória, sobretudo pessoal e menos partidária - mesmo que o PS que ostracizou o agora vencedor a tenha tornado sua -, o resultado é passível de ser lido como declaração política do eleitorado, alinhada com o Presidente eleito, porque ponderada, estratégica e institucionalmente consciente. Talvez por isso, o líder do executivo regional vaticinou desde logo o elementar, “uma relação institucional profícua”, de modo que a magistratura de influência zele pelos direitos dos madeirenses e porto-santenses.
A primeira volta serviu para sinalizar descontentamentos, com muitos eleitores cansados de discursos vazios e ávidos de novidade. Só que quando a escolha se tornou binária e consequente, a maioria optou por travar o risco e recentrar a decisão num perfil associado à previsibilidade, à moderação e à estabilidade democrática.
Este desfecho desmonta a tese de uma viragem estrutural da Madeira para o populismo. O voto em André Ventura revelou força, mas também limites claros. O protesto mobiliza, mas não se transforma automaticamente em maioria quando está em causa a chefia do Estado. O eleitorado madeirense mostra assim, mais uma vez, que sabe distinguir a efémera exibição do desagrado da necessidade de assumir uma escolha com impacto institucional duradouro.
António José Seguro vence, sobretudo, pelo que representa. Não tanto por entusiasmo mobilizador, mas por ser visto como confiável num contexto em que incertezas, extremismos e ódios se misturam, o que exige um mandato lúcido e focado na estabilidade e na cooperação, de modo a exercer a Presidência como factor de equilíbrio e não de tensão acrescida.
Os quase 60 mil votos obtidos por André Ventura - quase tantos como os que o PSD-M alcançou nas Regionais de 2025 - não podem ser ignorados. Na sua maioria não são oriundos do Chega e persistem como sinal de um mal-estar real e de uma fractura entre eleitores e sistema político que não se resolve com vitórias eleitorais pontuais. Indiciam um fenómeno contido, mas não eliminado, cabendo a quem tem reuniões magnas em breve avaliar dissidências e a quem não ousou assumir publicamente apoios medir os estragos de uma deriva que pode deixar lastro.
No essencial, a Madeira deu uma lição de maturidade democrática. Usou o voto para incomodar quando julgou ser oportuno e para decidir quando entendeu ser avisado jogar pelo Seguro. Ontem, o eleitorado regional evidenciou que não é errático, mas estratégico, e que, quando as escolhas se tornam claras, a estabilidade continua a pesar mais do que a revolta.
A democracia saiu testada destas Presidenciais. E na Madeira, saiu também reforçada. Até porque a vitória de António José Seguro foi acompanhada de um dado igualmente relevante: a participação. A abstenção fixou-se nos 44,7%, ligeiramente abaixo da registada na primeira volta (45,59%), contrariando a tendência habitual de menor mobilização nas segundas voltas. Este pormenor não é despiciendo. Revela que a percepção de que estava em causa uma decisão consequente trouxe mais eleitores às urnas, reforçando a legitimidade do resultado. A participação consciente mostra que há quem use o voto não apenas para decorar estados de alma, mas para definir um rumo.