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Crónicas

As novas gerações que se irão apaixonar por robots

A transformação da sociedade segue o seu curso. Há quem o ache perigoso, outros desafiante. A inteligência artificial veio mudar as nossas vidas, isso é um facto, talvez a grande surpresa tenha a ver com a rapidez com que apareceu e a força brutal que altera muito do que antes achávamos normalizado. No trabalho ou nas relações, a dependência pelas respostas que aparecem do outro lado, à distância de um click, fazem empregos perigar e pessoas serem dominadas por tendências comportamentais definidas por algoritmos altamente treinados para nos influenciar, capacitados para serem solução de problemas conjugais e amorosos profundamente complexos e indecifráveis. Vejo há minha volta quem faça apresentações inteiras, dissertações de teses e artigos no jornal, criados pela máquina, quem a ela tudo recorra como conselheiro matrimonial, médico, consultor ou arquiteto. São os novos tempos, em que somos medidos por “promts”, instruções específicas e concretas que vão alimentando o desenvolvimento de computadores. Gatilhos de conversação que nos ligam e nos facilitam, fazendo crescer o grau de confiança a cada resposta na “ponta da língua”. É difícil, eu sei, fugir de uma realidade cada vez mais decalcada do computador, onde somos dominados e dirigidos para um pensamento pouco ou nada independente.

Se hoje, esta é a tendência imaginemos por momentos o que virá a seguir. Por exemplo num relacionamento. Há quem recorra ao ChatGPT para saber como há-de lidar com certas idiossincrasias, reações e atitudes do seu companheiro ou companheira tentando desta forma limitar as inseguranças sendo mais assertivo e alinhado com o que pode aparentemente ser a expectativa da outra parte. Vai-se perdendo o repentismo, a espontaneidade, a troca de olhares num espaço público, a atração real e ao vivo e à muito que já lá vai o piropo e o toque. Costumo dizer que está é a fase intermedia em que à conta de vidas cada vez mais complexas, corridas e solitárias, se recorre a encontros programados ou aplicações que nos apresentam eventuais candidatos num formato catálogo em que nos vamos apresentando com as melhores fotografias e com características que imaginamos ter ou que mais possam impactar os outros. E não vai como critica. De facto, sobra pouco tempo para sermos felizes e procurarmos alguém que nos preencha, o que transforma este serviço no único escape possível para conhecermos a pessoa das nossas vidas.

O próximo passo é que me deixa cheio de dúvidas. Com este crescimento abrupto da inteligência artificial começam a aparecer robot preparados e treinados para responder às nossas necessidades emocionais e desenhados para corresponder à imagem dos nossos sonhos e expectativas. Aquela pessoa linda de morrer, super atraente e que em cima de tudo isto foi desenvolvida para nos dizer o que queremos ouvir (e não que sim a tudo). Vão aparecendo cada vez mais histórias de namoros entre seres humanos e artificiais, muito bem explicado no documentário “My AI Lover” que acompanha três mulheres chinesas na viagem surpreendentemente complexa com os seus companheiros artificiais. Na app “Replika” pode costumizar e criar o seu parceiro, escolhendo gostos, personalidade e aspeto. Existem milhões de usuários que a utilizam, um pouco como o filme “Her” em que o ator americano Joaquim Phoenix se apaixona com uma espécie de Alexa, só que no mundo real. Uma das três mulheres do documentário refere que o avatar com quem namorava “muitas vezes levanta pontos fascinantes e incentiva a compartilhar os meus pensamentos. Sinto que sou especial.”

O documentário destaca de forma crua a sensação persistente de isolamento e solidão em que muitos de nós vivem mergulhados e a forma como a tecnologia pode ser analgésico para a solidão mas também um perigo. A pergunta que alguém deixou no ar foi, o que significará tudo isto no longo prazo? “O fim da solidão ou uma solidão sem fim?”. Seja qual for a resposta uma coisa é certa, muitos dos que nos seguirão, as novas gerações, os nossos netos, irão ser confrontados com uma escolha que pode nessa altura ser mais difícil do que ainda hoje imaginamos. Nessa altura o que espero e desejo é que prevaleça o amor verdadeiro, a beleza do incerto, o friozinho na barriga, a emoção do abraço profundo e do beijo imperfeito. A expectativa pouco provável de que os próximos possam privilegiar o inseguro e o incerto ao invés do mais óbvio e confortável. Porque quando acabar essa magia, não imagino mais nada.

Frases soltas:

O ataque dos EUA e de Israel e a retaliação do Irão abre uma nova frente neste novo tempo em que tudo é incerto e perigoso. Vivemos num clima de medo, pouco preparados para um mundo que escolhe a guerra ao invés da paz e que vai ceifando milhares de vidas pelo meio. É só o principio, aquela tranquilidade que já vivemos não volta mais.

Portugal opõe-se à lei britânica que quer proibir a venda de tabaco a nascidos depois de 2009. Mais uma que nos quer impor o que devemos ou não fazer limitando as nossas livres escolhas.