Empréstimos nos Açores mostra que existe aperto familiar

No final de dezembro de 2025, segundo o Banco de Portugal e o Serviço Regional de Estatística dos Açores, os empréstimos bancários concedidos nos Açores a particulares e a empresas não financeiras atingiam 5.145,8 milhões de euros. O número pode impressionar pela dimensão, mas impressiona ainda mais pelo que revela sobre a realidade económica da região.

Em termos homólogos, o montante global cresceu 108,5 milhões de euros, um aumento de 2,2%. Aparentemente é um sinal positivo. Contudo, quando se observa a composição desse crescimento, percebe-se que o entusiasmo deve ser contido. O crédito aos particulares subiu, enquanto o crédito às empresas recuou. Traduzido em linguagem simples, as famílias endividam-se mais e as empresas investem menos.

O stock de crédito aos particulares alcançou 3.504,9 milhões de euros, o valor mais elevado de 2025. Face ao ano anterior, o aumento foi de 5,6%. A locomotiva deste crescimento é a habitação, com 2.447,0 milhões de euros, a que se juntam 1.057,9 milhões de euros em crédito ao consumo e outros fins. O número de devedores subiu para 108,1 mil. Numa região com a dimensão dos Açores, este dado deveria suscitar reflexão séria, não celebração.

Recorrer ao crédito não é, por si só, um pecado económico. Pode ser instrumento de investimento, de criação de valor, de mobilidade social. Mas essa narrativa encaixa melhor no empresário que arrisca capital ou no investidor que antecipa retorno. Quando o recurso ao crédito se torna estrutural na vida do mero trabalhador, muitas vezes para adquirir casa ou sustentar consumo corrente, o cenário muda de figura. O endividamento deixa de ser estratégia e passa a ser necessidade. E quando é necessidade, é sintoma de que as finanças pessoais não respiram com folga.

É certo que o rácio de empréstimos vencidos dos particulares se mantém em 0,6%. Na habitação é de 0,2% e no consumo atinge 1,5%. Os números são apresentados como prova de solidez e responsabilidade. Mas convém não confundir disciplina com sufoco. Um rácio baixo pode significar que as famílias estão a cumprir. Também pode significar que estão a cortar em tudo o resto para não falhar a prestação ao banco. Entre a estabilidade estatística e a qualidade de vida vai uma distância que os relatórios raramente medem.

Do lado das empresas não financeiras, o stock de crédito fixou-se em 1.640,9 milhões de euros, menos 4,6% do que no ano anterior. Há quem leia aqui prudência empresarial ou desalavancagem saudável. Outra leitura possível é menos romântica. Menos crédito pode significar menos investimento, menos expansão, menos confiança no futuro. Numa economia regional que precisa de diversificação e dinamismo, a retração do financiamento empresarial não é exatamente um hino ao progresso.

Os empréstimos vencidos das empresas desceram e o rácio de incumprimento recuou para 0,6%. A percentagem de devedores empresariais com empréstimos vencidos ficou em 8,5%. Mais uma vez, os indicadores parecem tranquilos. Contudo, uma melhoria no incumprimento acompanhada de contração do crédito pode simplesmente refletir menor exposição ao risco. Se se pede menos dinheiro emprestado, há menos margem para falhar. A estabilidade pode resultar não de maior robustez económica, mas de menor ambição.

O retrato final é, assim, profundamente revelador. As famílias endividam-se cada vez mais, sobretudo para garantir um direito básico como a habitação, enquanto as empresas reduzem a sua alavancagem. Os rácios de incumprimento permanecem contidos, o que tranquiliza os relatórios e alimenta discursos de normalidade. No entanto, por detrás da normalidade estatística pode esconder-se uma realidade mais desconfortável.

Uma economia onde o crescimento do crédito assenta sobretudo no bolso do trabalhador e não na expansão produtiva é uma economia que troca futuro por presente. O banco agradece a pontualidade das prestações. As estatísticas sorriem com rácios comportados. Já as famílias, essas continuam a viver entre o ordenado que entra e a prestação que sai, com cada vez menos margem para imprevistos. Se isto é sinal de saúde financeira, talvez seja altura de redefinir o conceito de saúde.

Gregório José