Museu abre em Berlim para "dar voz" às vítimas da guerra na Ucrânia
"Está na mira do piloto de um drone russo" é a primeira mensagem que acompanha a imagem do visitante refletida numa câmara. Tal como esta exposição permanente, inaugurada hoje, em Berlim, é forte e direta.
São 300 metros quadrados num 'bunker' histórico da Segunda Guerra Mundial, no bairro de Kreuzberg. É considerado o primeiro museu fora da Ucrânia dedicado especificamente a documentar a guerra, perpetrada pela Rússia, e as consequências.
"É a forma de dizermos aos ucranianos que estamos, que continuamos, do lado deles. Queremos dar-lhes voz", contou Wieland Giebel, curador do museu Story Bunker, enquanto vai apontando para o espaço.
Ao pé do monitor, logo à entrada, a mensagem continua.
"O drone é mais rápido do que tu. Voa a mais de 120 quilómetros por hora. É um drone russo verdadeiro, com uma câmara original. Todos os dias, a Rússia ataca a Ucrânia com milhares destes drones", termina a mensagem que serve quase de introdução às salas que se seguem.
Há drones usados, alguns danificados, testemunhos de sobreviventes de ataques, de repórteres de guerra, de refugiados, de pessoas que optaram por ficar na Ucrânia, capacetes que contam histórias, tudo para contar "a coragem do povo ucraniano, a sua força e perseverança".
Wieland Giebel já foi à Ucrânia uma dezena de vezes desde que a guerra começou, a 24 de fevereiro de 2022.
"É muito fácil. Basta apanhar um autocarro e ter um passaporte. Em menos de um dia chega-se a Kiev", afirmou, enquanto vai mostrando uma mochila no canto de uma das salas, a mochila de Julia, uma refugiada ucraniana. No teto mais uma mensagem pendurada em alemão e inglês que pergunta: "ficar ou fugir".
A exposição permanente conta histórias dentro da própria história. A principal, e a "mais triste", está dentro de um Fiat Scudo Combinato cinzento, destruído.
"Era utilizado por voluntários ucranianos como táxi social em Kherson e foi bombardeado por um drone russo a 12 de abril de 2025", descreveu Enno Lenze, diretor do museu Story Bunker.
"O nosso amigo Oleg Konekt morreu no ataque e o nosso amigo Oleg Degusarov ficou gravemente ferido. Queremos, através disto, contar a história da coragem dos voluntários. A maioria dos ucranianos quer permanecer no país e ajudar de diferentes formas. E nós devemos apoiar essas pessoas", sublinhou.
A exposição foi organizada em cooperação com instituições ucranianas e alemãs, incluindo especialistas militares, que trabalharam para transmitir, não apenas os factos, mas também o contexto político e humano do conflito.
"Cada vez que visitámos a Ucrânia, trouxemos connosco histórias e artefactos da guerra e falámos deles a muitos colegas. Houve sempre um grande interesse. Foi assim que surgiu a ideia de criar uma pequena exposição sobre o tema, que possa crescer ao longo do tempo", continuou Enno.
"Queremos mostrar que, embora a guerra seja brutal, a Ucrânia é indestrutível", destacou.
Em novembro de 2025, aproximadamente 1,23 milhões de cidadãos ucranianos tinham estatuto de proteção temporária na Alemanha. Berlim é o mais fornecedor de armas a Kiev e um importante aliado diplomático.
No mesmo 'bunker' que acolhe esta nova exposição, há uma outra, permanente sobre o antigo ditador nazi alemão Adolfo Hitler. Entre os depoimentos pessoais vão-se encontrando algumas ligações, como de Roman Schwarzmann, um sobrevivente do Holocausto.
"Hitler queria matar-me por ser judeu. Putin quer matar-me por ser ucraniano".