O que é o vírus Chikungunya?
A subida global da temperatura pode aumentar a transmissão deste vírus
Portugal está integrado na área onde existe a mais elevada possibilidade de transmissão do vírus Chikungunya, na Europa, que apresenta um risco alargado de transmissão. O vírus representa uma “ameaça à saúde na Europa maior do que se pensava anteriormente”, lê-se num estudo do Centro de Ecologia e Hidrologia do Reino Unido, ontem publicado na revista científica The Royal Society.
Agência Lusa , 18 Fevereiro 2026 - 15:00
Na prática, o novo estudo revelou que o vírus pode transmitir-se com temperaturas de apenas 13 a 14 graus Celsius, ao contrário de pesquisas anteriores que indicavam um mínimo de 16 a 18 graus. Isso significa que existe o risco de surtos locais de Chikungunya em mais áreas e por períodos mais longos do que se pensava anteriormente, alertaram os investigadores, que criaram um mapa para a Europa com três níveis de risco – elevado, moderado e baixo.
Portugal está enquadrado na área de maior risco, em conjunto com países como a Grécia, Itália, Malta e Espanha, com o estudo a prever que a transmissão posso ocorrer durante cerca de seis meses por ano. O gradiente de risco é maior nas regiões do Sul da Europa, diminuindo à medida que se avança para Norte e Noroeste. Aproximadamente 50% da área geográfica da Europa é agora propícia à transmissão durante Julho e Agosto.
O que é o Cikungunya
Chikungunya é o nome da doença, infecção ou febre causada pelo vírus com o mesmo nome. O primeiro caso ocorreu no Planalto Makonde, na Tanzânia, em 1952. O nome Chikungunya teve origem num verbo do dialecto local que significa ficar curvado ou dobrado, e está relacionado com a postura adoptada pelos doentes, consequência da dor articular provocada por esta infecção.
O vírus está presente em mais de 60 países, principalmente nas regiões de clima tropical, especialmente no Sudoeste Asiático, em África e na América do Sul; mas também em regiões temperadas, como a Europa ou os Estados Unidos da América.
Desde 2010 têm-se registado na Europa surtos de Chikungunya, associados a mosquitos do género Aedes. Registaram-se surtos em Itália em 2007 e 2017 e foram diagnosticados casos de infecção contraída fora da Europa também em Espanha, Reino Unido, Suíça, Bélgica, República Checa, Alemanha, Noruega e França. Neste país há ainda registo de casos de infeção local.
Em Portugal, a presença de Aedes aegypti está registada na ilha da Madeira desde 2005. No continente, o mosquito Aedes albopictus foi identificado em 2017 no concelho de Penafiel, em 2018 em Loulé, em 2022 em vários concelhos algarvios e em Mértola e em 2023 em Lisboa. Até à data, não foram notificados casos de Chikungunya.
Transmissão
O vírus é transmitido por mosquitos do género Aedes, principalmente os das espécies Aedes aegypti e Aedes albopictus. Estes mosquitos têm impacto na saúde pública, também na Europa, onde são espécies invasoras, mas já bem estabelecidas. Vivem junto dos habitats humanos e a sua actividade é mais intensa durante o dia, particularmente ao amanhecer e ao entardecer.
Estes mosquitos são vectores de transmissão de vários microrganismos que causam doenças em humanos e em animais domésticos, entre os quais o vírus Chikungunya, mas também a Dengue, Zika, Febre Amarela, West Nile e Encefalite Japonesa.
A infecção do Chikungunya não se transmite directamente de pessoa a pessoa. No entanto, está documentada a transmissão de mãe para filho na gravidez e no periparto e na sequência de transfusões de sangue contaminado.
O homem é o principal reservatório do vírus chikungunya. A transmissão acontece quando as fêmeas Aedes aegypti e Aedes albopictus picam para se alimentarem do sangue que precisam para completar o seu ciclo de vida. Se estiverem infectadas pelo vírus, podem transmitir a infecção quando picam.
Sintomas
Depois de um período de incubação de 3 a 7 dias (mas que pode variar entre 1 e 12 dias), os sintomas mais importantes e característicos da infeção chikungunya aguda são a febre de início súbito, frequentemente elevada, acompanhada de dor de cabeça, arrepios, intolerância à luz, náuseas e vómitos e erupção cutânea; bem como a dor articular e muscular incapacitante com início 2 a 5 dias depois da febre, atingindo particularmente as articulações mais distais.
A gravidade da infecção pode variar desde assintomática (em 10% a 15% dos casos), a uma doença ligeira e autolimitada, e até manifestações neurológicas graves e evolução para uma forma crónica com dor articular incapacitante, que pode durar meses ou anos e que acontece entre 30% a 40% dos casos. Considera-se que a doença é crónica quando os sintomas se mantêm além de três meses.
As formas mais graves da doença tendem a ocorrer em grupos de risco específicos, como são as mulheres em fases avançadas da gravidez, idosos e as pessoas com comorbilidades, por exemplo com insuficiência renal ou cardíaca. Cerca de 0.6% a 13% dos infectados precisam de internamento. Os casos fatais são raros (0,024 a 0,8%), mas numa percentagem importante das pessoas infectadas a doença pode tornar-se crónica e prejudicar seriamente a qualidade de vida.
Diagnóstico
O diagnóstico de Chikungunya baseia-se no exame do doente e nos sintomas, especialmente na febre a dor articular, particularmente quando está associada a origem ou história recente de viagens para zonas em que o vírus é endémico. Ainda assim, a confirmação do diagnóstico só pode ser feita através de análises de sangue.
Os viajantes para zonas endémicas devem estar particularmente atentos aos sintomas, mesmo depois do seu regresso, e comunicar os seus destinos e dados de viagem caso recorram aos serviços de saúde.
Tratamento e prevenção
Não há medicamentos antivirais específicos contra o vírus Chikungunya. O tratamento é sintomático, ou seja, direcionado para o alívio dos sintomas, principalmente para a dor das articulações. A vacina contra o Chikungunya foi aprovada pelas autoridades europeias (European Medicines Agency, EMA), em Junho de 2024. Não existem outros medicamentos destinados à prevenção da febre Chikungunya.
Medidas de controlo da saúde pública
A prevenção do vírus Chikungunya tem, então, de ser feita através de medidas de controlo da população de mosquitos Aedes, e com cuidados individuais. É importante reduzir o número de criadouros de mosquito, tanto no exterior como no interior, através do esvaziamento ou eliminação de fontes de água parada, e da cobertura eficaz dos contentores com água, tanques, poços, etc.
Em termos de prevenção individual deve usar-se redes protectores nas janelas das casas, usar ventoinhas e ar condicionado (que contribuem para a protecção, porque os insectos afastam-se do vento), cobrir bem todas as zonas do corpo quando no exterior, usando meias e sapatos fechados, mangas compridas, calças compridas e chapéu, e aplicar repelentes de insectos em toda a pele exposta e também na roupa.