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Habitação é um direito humano e constitucional

Querem constituir famílias e sair da casa dos pais ou de outros familiares, mas não conseguem

Por mais voltas que os governos possam dar, por mais piruetas que possam fazer, não podem negar que, durante muitos anos, deixaram de construir habitação pública e de criar condições para que as famílias possam alugar uma casa de acordo com os seus rendimentos. As famílias de classe média, se ainda existem, deixaram de poder pedir empréstimos ao banco para comprar casa, porque essas estão a preços só acessíveis a quem realmente consegue ter ordenados altos, ou seja, a uma minoria.

É por isto que as novas gerações estão encurraladas. Querem constituir famílias e sair da casa dos pais ou de outros familiares, mas não conseguem ter um salário que lhes permita comprar, arrendar ou aceder a uma renda social porque a lista de espera é cada vez maior e escassa.

Também há pessoas que vivem na mesma casa, mas sem estarem realmente juntas. Não têm alternativa de habitação para formalizar uma separação que muitas vezes já existe de facto, mas viverem na mesma casa torna as suas vidas ainda mais infelizes, com todos os problemas pessoais e sociais que isso acarreta.

É por tudo isto que o descontentamento um dia tinha que rebentar. O que está a acontecer um pouco por toda a Europa e no nosso país é o desfecho de um balão que estava demasiado cheio e que rebentou. E por mais palavrões que os governantes e os seus apoiantes possam chamar a quem se manifesta nas ruas, pura e simplesmente estão a tentar “tapar o sol com a peneira” porque têm consciência plena que, independentemente de tudo, quem se manifesta tem razões de sobra para o fazer.

E não são só os mais jovens que estão a ser afetados: muita gente de várias idades também têm participado nos protestos porque sentem na pele a ameaça de despejos, se não pagarem os aumentos brutais das rendas que muitos senhorios querem impor. Se até existem atualizações razoáveis, há outras que são um autêntico escândalo e incomportáveis de pagar, de acordo com o rendimento disponível das famílias que arrendam as casas.

Todas estas situações também existem na Madeira e é por isso que se sente um maior descontentamento no ar, quando mais de 100 pessoas sentem a necessidade de participar numa Assembleia Pública, para decidir da sua participação na grande manifestação nacional do dia 14 de novembro pelas 17 horas.

É bom que assim seja porque, embora já estejam a ser anunciadas a construção de algumas habitações públicas por parte do Governo e de alguns Municípios, pelos números que vieram a público são gotas num grande oceano de carências que a nossa Região tem. Vai ser necessário fazer muito mais para responder às reais necessidades de quem precisa.

Faço votos para que no dia 14 as forças todas sejam canalizadas para a rua, para que os responsáveis, a todos os níveis, sintam que este problema é muito sério. Assim o foi no início da Autonomia, onde a onda de construção pública foi muito grande e dessa forma acabou-se com pessoas e famílias a viverem em furnas e em barracas, sobretudo no Funchal e em locais sem o mínimo de higiene e condições de habitabilidade como, por exemplo, o antigo bairro do Porrão em Câmara de Lobos. Só com respostas concretas é que o povo saberá responder também positivamente.

Não vale a pena reprimir as manifestações com polícias armados porque isso só incendeia quem sente na pele os problemas. Se o Ministro diz que a repressão é um ato pedagógico, nunca devia ser merecedor de viver em democracia. Pedagogia devia significar sentir empatia por quem sofre, e não o contrário.