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Entre poios e alterações climáticas, como redesenhar o território para a Madeira continuar a dar frutos?

A Agricultura Madeirense, em debate na Conferência “Conversas com a Sociedade”, organizada pela Região Madeira da Ordem dos Engenheiros a 28.09.2026, concluiu que a mesma deve ser assumida como uma dimensão estratégica da resiliência regional e do futuro da Madeira. Nunca foi apenas uma atividade económica: foi, e continua a ser, uma forma de construir território, vencer o declive e transformar limitações naturais em paisagem, rendimento e identidade. Os poios, as levadas, os caminhos agrícolas e os produtos regionais traduzem séculos de conhecimento acumulado e uma capacidade notável dos Madeirenses para adaptar o território às suas necessidades.

Mas este património produtivo, que se quer manter vivo, enfrenta hoje desafios que não podem ser ignorados. As alterações climáticas estão a modificar os regimes de precipitação, a disponibilidade de água, a estabilidade dos solos, a incidência de pragas e os ciclos das culturas. A estes riscos juntam-se o abandono agrícola, a pressão sobre o solo, o envelhecimento dos produtores e a dificuldade em atrair novas gerações.

Numa Região Ultraperiférica, insular e dependente do exterior, a agricultura assume uma importância acrescida. Uma tempestade que condicione a operação portuária, uma falha nas cadeias logísticas ou uma crise internacional bastam para evidenciar a vulnerabilidade da cadeira de abastecimento. O setor primário não pertence ao passado. Tem de fazer parte do futuro, enquanto componente da autonomia possível, da segurança alimentar, do ordenamento territorial e da capacidade de resposta da Região.

Redesenhar o território para a Madeira continuar a dar frutos exige políticas públicas consistentes e uma visão de longo prazo. Exige uma gestão mais eficiente da água, proteção do solo, valorização dos produtos regionais, apoio efetivo aos agricultores e uma reserva agrícola definida à nossa escala e particularidades territoriais. Produzir, conservar e viver não podem ser objetivos concorrentes, mas dimensões compatíveis num território devidamente ordenado.

A Engenharia tem aqui um papel determinante: na modernização das redes de rega e das levadas, na estabilidade das encostas, na prevenção da erosão, na eficiência energética, na monitorização climática e na utilização de dados para apoiar decisões mais informadas, nomeadamente numa Governação Territorial Inteligente. A tecnologia não substitui o conhecimento local; reforça-o e torna-o mais eficaz perante cenários de crescente incerteza.

Não podemos lembrar-nos da agricultura apenas quando há escassez, crise ou dificuldades de abastecimento. Valorizá-la permanentemente é investir na economia regional, cuidar da paisagem, reduzir riscos, preservar conhecimento e reforçar a nossa identidade e a resiliência coletiva. É também reconhecer que um território produtivo e cuidado constitui uma primeira linha de proteção perante os efeitos das alterações climáticas.

Porque falar de agricultura é falar do futuro da Madeira. E garantir esse futuro depende da nossa capacidade de unir ciência, planeamento, inovação, conhecimento local e Engenharia. Mais do que preservar uma memória, importa assegurar uma atividade económica viva, capaz de produzir, fixar pessoas, ordenar o território e contribuir para uma Região mais autónoma, preparada e resiliente.