Rés Pública
No dia em que se assinala a Implantação da República, convém recordar que o regime nasceu de um regicídio em 1908 que ainda hoje se arruma com demasiada facilidade na prateleira da História. Dois anos depois, emergiria a República, entre promessas de regeneração, moral pública e futuro. Após cento e dezasseis anos, a regeneração sobrevive sobretudo em cerimónias, discursos solenes e outras formas subtis de saque simbólico.
E o Funchal continua a sacar como alguém dependente do opiáceo: a taxa turística duplicou, depois de anos em que o assunto era tratado como indecência administrativa ou tabu. Agora, o visitante paga mais para admirar a paisagem, os congestionamentos, e aos locais prometem de que a receita será aplicada com critério. Naturalmente: a dependência desta febre do ouro começou com um charro para relaxar e agora não dispensa a redentora injeção de heroína.
Na senda da rentabilidade, os biólogos avisam que o turismo da Madeira exige limites. Ambiente e Turismo continuam, porém, abrigados na mesma secretaria regional, numa convivência tão harmoniosa como um fósforo e uma refinaria. Não há esquizofrenia institucional: há apenas a arte de chamar «sustentabilidade» à contagem obsessiva de camas, carros de aluguer, cruzeiros e filas nas levadas, enquanto a natureza e a paciência aguentam, até deixarem de aguentar.
Cinquenta anos de Autonomia madeirense não bastaram para produzir alternância política. Produziram, em contrapartida, uma indústria regional de autoelogio, inaugurações, salamaleques e fotografias de família. A velha e a atual constelação do poder aprenderam a tratar a Região como um clube privado: os lugares circulam, os discursos reciclam-se e os aplausos, devidamente subsidiados pela tradição, nunca faltam.
Reciclagem é, aliás, a palavra do momento. O sistema Volta elevou os cidadãos à condição de catadores tecnológicos: pagam adiantado, transportam embalagens, fazem fila diante das cangalhas das grandes superfícies e recuperam dez cêntimos. É uma slot-machine de casino com prémio garantido, com a generosa intermediação dos hipermercados. Eis a mobilidade social à portuguesa: primeiro o empréstimo forçado, depois o trabalho gratuito, por fim a esmola automatizada. Talvez se possa meter ali a papelada das viagens e recuperar o adiantamento do Mecanismo de Mobilidade, esse outro exercício de fé na devolução.
E nada melhor para encerrar esta epopeia republicana do que Ronaldo: depois de Luís Neves ter sido arquivado pela memória nacional, o «nosso» capitão chamou o jato e abandonou o estágio em Copenhaga numa birra de categoria executiva. Portugal, em resposta, goleou a Dinamarca no dia seguinte. Há ausências que funcionam como tática.
Entre juros a escaldar, rendas a insuflar e inflação a galopar, eis finalmente um problema à altura do país, pois, o que seria de nós se não fôssemos tão ricos em futilidades?