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Lista de Estudantes vence eleições legislativas na Sérvia

Foto MARKO DJOKOVIC/EPA
Foto MARKO DJOKOVIC/EPA

I líder nacionalista Aleksandar Vucic, figura dominante na política sérvia nos últimos 14 anos, reconheceu ontem a derrota nas eleições legislativas antecipadas de domingo, um anúncio que gerou júbilo no centro da capital da Sérvia, Belgrado.

"É claro que perdemos estas eleições", disse Vucic aos apoiantes na sede do partido na capital, reconhecendo que as eleições tinham sido ganhas pelo movimento de estudantes universitários que liderou protestos contra ele durante quase dois anos.

Após ter cumprido dois mandatos quase completos como Presidente, Vucic renunciou à Presidência no mês passado para liderar a campanha do seu Partido Progressista Sérvio, de direita.

Embora os 6,4 milhões de eleitores da Sérvia pudessem escolher entre 18 partidos que aspiram a entrar no parlamento, composto por 250 membros, a eleição assumiu a forma de um referendo entre o partido de Vucic e a Lista dos Estudantes, apoiada pela juventude.

O escrutínio de domingo registou uma participação recorde, tendo o diretor do Gabinete Nacional de Estatísticas, Branko Josipovic, anunciado em conferência de imprensa que duas horas antes do fecho das urnas, "64,89% do total" de eleitores já tinha votado.

Esta é a maior participação eleitoral desde 1993 (61,34%) e os dados ainda não eram os finais.

"A Sérvia ganhou, exatamente como prometemos", declarou Ilija Srdanovic, representante da lista estudantil, aos ativistas que agitavam balões coloridos.

"Nunca mais teremos um tirano neste país", acrescentou citada pela agência France-Presse.

Suzana Mila Martic, uma estudante, disse à AFP que se sentia "incrivelmente bem".

"Sinto que finalmente estou a viver num país livre", adiantou.

Esta eleição foi a primeira desde 2012 a oferecer aos eleitores a possibilidade de uma mudança de poder.

"Observámos um número significativo de irregularidades e incidentes", disse à imprensa Rasa Nedeljkov, chefe de observação eleitoral do CRTA (Conselho Regional das Forças Armadas).

A AFP refere que as autoridades ainda não confirmaram qualquer caso grave de violência relacionada com as eleições.

Esta vitória é o culminar de quase dois anos de protestos desencadeados pelo desabamento, em 2024, de uma cobertura na estação ferroviária de Novi Sad, a segunda maior cidade do país balcânico, que causou 16 mortos.

Os manifestantes, que atribuíram o acidente à corrupção endémica na Sérvia, chegaram às centenas de milhares na capital no auge da mobilização e gradualmente as suas reivindicações transformaram-se em pedidos de eleições antecipadas, que Vucic convocou no início de setembro.

China disponível para trabalhar com estudantes 

A China manifestou hoje disponibilidade para trabalhar com o novo Governo sérvio, após a derrota eleitoral do nacionalista populista Aleksandar Vucic, sob cuja liderança as relações entre Pequim e Belgrado se estreitaram.

O porta-voz do ministério dos Negócios Estrangeiros chinês Guo Jiakun afirmou, em conferência de imprensa, que Pequim "respeita sempre o princípio da não ingerência nos assuntos internos e a escolha autónoma dos povos de cada país", numa referência aos resultados das eleições legislativas sérvias.

"Atribuímos grande importância ao desenvolvimento das relações entre a China e a Sérvia e estamos dispostos a trabalhar com o novo Governo sérvio, com base no respeito mútuo, na igualdade e no benefício mútuo, para assegurar que as relações bilaterais avançam de forma estável e a longo prazo", afirmou Guo.

Vucic, figura dominante da política sérvia há 12 anos, reconheceu no domingo a derrota nas eleições legislativas perante a Lista de Estudantes, da oposição.

Segundo dados ainda não oficiais nem definitivos do instituto de sondagens Ipsos, a Lista de Estudantes conquistou 140 lugares no parlamento, contra 103 do conservador Partido Progressista Sérvio (SNS), de Vucic, que perdeu 26 deputados face às eleições de 2023, quando alcançou a maioria absoluta.

O combate à corrupção tem sido um dos principais objetivos declarados do movimento estudantil, que surgiu em novembro de 2024, após a morte de 16 pessoas no desabamento de uma cobertura numa estação ferroviária renovada no âmbito de um contrato pouco transparente adjudicado a empresas chinesas.

A China tem aumentado a sua presença económica na Sérvia, onde é já o segundo maior investidor, atrás da União Europeia.

Vários projetos são adjudicados diretamente a empresas chinesas através de acordos intergovernamentais.

Vucic, primeiro-ministro entre 2014 e 2017, exerceu durante nove anos o cargo de Presidente da Sérvia, até se demitir, em setembro passado, para poder candidatar-se à chefia do Governo.

Durante a sua liderança, as relações entre o país balcânico e a China conheceram um aprofundamento significativo.

Os dois governos classificam a relação bilateral como uma "amizade de ferro", assente no apoio político mútuo em questões sensíveis: Pequim não reconhece a independência do Kosovo, enquanto Belgrado apoia a posição chinesa sobre Taiwan.

No final de maio, Vucic visitou Pequim, onde se reuniu com o Presidente chinês, Xi Jinping, e acordou reforçar a cooperação bilateral.

Durante a visita, o então Presidente sérvio recebeu a Medalha da Amizade, a mais elevada condecoração estatal chinesa atribuída a cidadãos estrangeiros.