Acampada de Lisboa contabiliza 130 tendas no Rossio
A Acampada de Lisboa pelo direito à habitação contabilizou esta noite, cerca das 22:00, um total de 130 tendas montadas na Praça do Rossio, onde "cerca de 300 pessoas" pretendem dormir esta noite.
A contabilização das pessoas que pretendem dormir nas tendas foi feita em reunião de delegados dos grupos de afinidade dos campistas da Acampada de Lisboa.
No início desta reunião, que começou pelas 22:00 em frente às tendas montadas junto à estátua de D. Pedro IV, os organizadores reforçaram que, a partir das 00:30, há risco de detenção por parte da polícia.
Para acompanhar o evoluir da situação e decidir como agir, decidiram voltar a reunir-se às 23:30.
Afirmando que a polícia avisará antes de qualquer ordem de evacuação da praça, os manifestantes ponderam se, perante uma possível intervenção policial, arrumam as tendas e desmobilizam ou formam um cordão e resistem, com a organização a avisar que será "normal" os delegados terem de reunir às 02:00 ou às 03:00 para decidir se mantêm o acampamento ou não.
Na sexta-feira à noite, numa assembleia popular descentralizada no Bairro do Condado foi aprovado, por unanimidade, voltar a montar as tendas hoje na Praça do Rossio.
A acampar com o namorado e amigos, Catarina Bio, de 23 anos, que vive em Lisboa, contou à agência Lusa que desde o passado sábado que tem participado na Acampada de Lisboa pelo direito à habitação, considerando que esta mobilização popular tem tido "impacto em duas frentes", para que se fale mais do problema da habitação, de quem sente na pele esta crise, e para que as pessoas se juntem e se organizem por esta luta.
"Somos muitos e organizados", realçou Catarina Bio, contando que ainda vive na casa dos pais e que terminou recentemente o curso de Direito, estando à procura de trabalho, com a consciência de que, quando pensar em procurar casa, vai ser difícil porque "os preços estão incomportáveis".
Presente no Rossio na manhã de terça-feira quando a polícia interveio contra os manifestantes acampados, Catarina recordou que "foi horrível, mas não surpreendente", criticando a violência policial, inclusive "pessoas a serem arrastadas pelo cabelo".
"O Governo, neste momento, está muito nervoso [...]. Não importa a repressão, nós continuamos aqui e continuamos a lutar", declarou.
Durante a assembleia popular, que começou pouco depois das 19:00 e terminou pelas 21:00, com milhares de pessoas presentes à frente da estátua D. Pedro IV, enquanto na parte de trás se erguia a acampada, ouviram-se várias vozes, através do microfone aberto, a defender o direito a protestar com as tendas, para pressionar o Governo, liderado por Luís Montenegro (PSD), a deixar cair a nova lei do arrendamento.
"Acorda Montenegro, nós não temos medo", ouviu-se, a que se juntou o apelo às centrais sindicais para uma greve geral pelo direito à habitação.
"Greve geral de Espanha a Portugal", gritaram os manifestantes, referindo ainda que "a luta por esta causa não tem partido" e avisando Montenegro que "ter uma casa não é um luxo, mas ter 55 é".
"Oh Montenegro, presta atenção, as tuas casas vão virar ocupação", repetiram as milhares de pessoas que ocuparam a Praça do Rossio, acrescentando ainda que "o povo unido jamais será vencido".
"Agora, agora, agora que estamos juntas, agora que sim nos veem, abaixo o Montenegro que vai cair, vai cair, e viva a acampada a resistir, a resistir", fizeram ecoar, também com críticas à intervenção policial: "À bastonada não levam nada, à bastonada só cresce a acampada".
Antes da acampada, milhares de pessoas participaram na manifestação "Não temos casa, montamos tendas!", que partiu do Marquês de Pombal, em direção à Praça do Rossio, onde, desde o passado sábado, a Acampada de Lisboa se tem reunido todos os dias, à exceção de sexta-feira, quando se concentrou no Bairro do Condado para exigir medidas para resolver a crise da habitação.
Nas exigências concretas ao Governo, a Acampada de Lisboa pretende a reversão da lei do arrendamento, o fim das demolições e dos despejos sem alternativa habitacional e que seja travada a aquisição de habitação por parte de fundos imobiliários.
Além disso, é ainda exigido o aumento de habitação pública, a aplicação de tetos às rendas, além da iniciativa pública de recuperação de imóveis devolutos para fins habitacionais.
Entre manifestações e as denominadas acampadas, com centenas ou milhares de manifestantes, os atuais protestos contra a crise na habitação tiveram início no Porto a 10 de outubro e expandiram-se a Lisboa, mas já motivaram também concentrações noutras cidades, dias depois da aprovação parlamentar da nova lei do arrendamento, agora em discussão na especialidade.
As iniciativas, promovidas por movimentos cívicos e difundidas pelas redes sociais, reivindicam medidas que respondam à crise no setor, o controlo dos preços dos bens essenciais e dos combustíveis e defendem impostos sobre os lucros extraordinários das grandes empresas do setor bancário.
A 15 de outubro, o movimento que protestava no Porto, com uma acampada, denunciou uma carga policial violenta durante a madrugada que causou ferimentos em 39 dos participantes, dois dos quais ficaram em estado grave, e num polícia. Em Lisboa, as autoridades removeram dezenas de tendas do Rossio ao início da manhã de terça-feira e detiveram 55 manifestantes, que serão presentes a juiz dia 27.
Os promotores dos protestos prometem continuar nas ruas.