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Crónicas

Vozes do Oceano

“Compreendê-lo. Amá-lo. Criar grandes áreas protegidas.”

“Quando olha para o oceano, o que vê que nós, à superfície, não conseguimos ver?” “Freedom”, respondeu-me Paul Rose. Liberdade. Uma palavra. E, de repente, toda uma vida parecia caber nela.

Não me lembro de quando vi Paul Rose pela primeira vez. Pode ter sido na BBC, na série Oceans, em Britain’s Secret Seas ou numa das suas expedições divulgadas pela National Geographic. Mas lembro-me muito bem do que senti, e continuo a sentir, sempre que o vejo falar do mar. Os olhos brilham-lhe com um entusiasmo contagiante, como se cada mergulho fosse o primeiro. Há naquele homem um amor tão profundo pelo oceano que parece impossível uma vida inteira chegar para o conhecer. Sentia o mesmo quando via os documentários de Jacques Cousteau.

Nasci e cresci em Cascais, praticamente na praia, numa família em que a História e os grandes feitos marítimos sempre tiveram um lugar especial. Descobria-os em quadros, mapas, livros e histórias que passavam de geração em geração, alimentando a imaginação. O mar foi sempre liberdade, mistério, descoberta. Uma paixão tão grande que, aos 16 anos, me levou a cofundar a primeira associação ambientalista de Cascais.

Trinta e quatro anos depois, embarquei na Santa Maria Manuela, como jornalista, para acompanhar a segunda etapa da expedição Madeira Ocean 2026. Paul Rose recebeu-me. O homem real superou o que a minha imaginação desenhara dele.

Paul começou a mergulhar em 1969. Explorou mares em todos os continentes e regiões polares, liderou expedições e há até uma montanha na Antártida com o seu nome. Continua a dedicar a vida à descoberta e à proteção do oceano. Podia ter encontrado alguém acomodado ao prestígio de uma carreira extraordinária. Encontrei um homem generoso, bem-disposto e genuinamente curioso. E aquela gargalhada fácil, sonora, arrebatadora! É bonito descobrir que ainda há lobos do mar que conservam intacta a capacidade de se surpreender, de se espantar. Que alimentam a curiosidade, o desejo de descobrir, a vontade de aprender. Quanto mais Paul conhece o oceano, da superfície às profundezas, mais razões encontra para se maravilhar com ele.

Garante que vai continuar a explorar o oceano até ao fim da vida. “Nunca vou parar”, diz. E acredito que não pare. Para Paul, explorar os mares é uma forma de viver.

Os grandes navegadores fascinavam-me pelos mares que atravessaram e pelos lugares a que chegaram. Paul representa outra dimensão da exploração: é preciso garantir que o oceano continua a existir para ser descoberto. É também isso que o traz à Madeira, onde decorre a maior expedição científica alguma vez realizada nos mares do arquipélago. Cerca de 200 cientistas, de 50 nacionalidades, de 34 instituições, procuram conhecer melhor o oceano para o poder proteger.

É um trabalho coletivo, muitas vezes invisível, feito de observações, perguntas, descobertas e muita persistência. Os resultados desta expedição podem ajudar a decidir o futuro de ecossistemas inteiros.

E cativa-me que alguém com tanto para contar continue tão disponível para escutar. Paul acredita nas novas gerações, eu também. Quer que explorem, façam perguntas, descubram por si próprias e partilhem o que encontraram. O conhecimento só serve se for partilhado, se o entregarmos, como um testemunho, a quem vem depois.

Paul conhece de perto os problemas que ameaçam o oceano. E, quando lhe pergunto se continua otimista em relação ao seu futuro, responde sem hesitar: “Totalmente. Sou mesmo.” Gosto desta resposta, sobretudo porque vem de quem sabe exatamente o que está em risco.

Imagino que, daqui a algumas gerações, alguém mergulhe nas águas da Madeira e encontre um oceano que estes cientistas, as comunidades locais, políticas conscientes e tantas outras pessoas, ocean voices, onde se incluem jornalistas, ajudaram a proteger. Não saberá os seus nomes, se calhar nunca terá ouvido falar desta expedição, mas poderá sentir aquilo que Paul Rose encontra no mar há mais de meio século: Liberdade.