A verdade não espera
Festejamos hoje 150 anos de missão informativa focada na defesa intransigente das gentes da Madeira e do Porto Santo, dos seus valores e sonhos. Onde quer que se encontrem. Sejam pobres, ricos ou remediados. Tenham ou não estudos, heranças ou influência. Somos de todos.
Mesmo que os assinantes já ontem tenham recebido a nossa prenda, com o DIÁRIO de hoje chega-vos às mãos uma revista especial que nos transporta para essa memória colectiva, precisamente quando faltam 300 dias para chegarmos à edição 50.000. É mais um número redondo, carregado de história, que nos convida a novas reflexões e nos obriga a pensar no futuro. Porque um jornal não vive apenas daquilo que publicou e que está acessível na sua hemeroteca. Alimenta-se da confiança que consegue conquistar todos os dias e dos projectos que empreende para continuar a ser útil e relevante.
Desde 11 de Outubro de 1876, o mundo mudou de forma radical. Mudaram os regimes, as sociedades, a economia, a tecnologia e a maneira como comunicamos. Mas mudou, sobretudo, o tempo que estamos dispostos a conceder à informação. Hoje, tudo acontece depressa, em segundos. Tudo circula instantaneamente, em tempo real. Tudo parece exigir uma reacção imediata, quase simultânea. Mas a velocidade, tantas vezes confundida com mérito e competência, é manifestamente inimiga da perfeição. E, no jornalismo, a pressa de chegar primeiro nunca pode valer mais do que o compromisso com a verdade.
Vivemos numa época em que a desinformação se propaga à velocidade de um clique, em que a manipulação se disfarça de notícia, a opinião se apresenta como facto e a inteligência artificial tanto pode ajudar a compreender melhor o mundo como, se usada sem ética, tornar mais difícil reconhecer o que é autêntico. Nunca tivemos tanta informação disponível. E talvez nunca como agora tenha sido tão necessário saber em que fontes, meios e marcas podemos confiar.
É neste contexto que o jornalismo deve afirmar a sua diferença. Não basta reproduzir o que circula, amplificar o que gera reacções ou alimentar a urgência permanente do digital. É preciso confirmar, confrontar, contextualizar, explicar e interpretar honestamente. Isso implica perguntar, muitas vezes até à exaustão, comprovar de forma transparente e separar o essencial do acessório, o facto do boato e a evidência da suspeita. Implica também ter a coragem de reconhecer o erro, cometido inadvertidamente ou induzido por fontes até então dignas de crédito, mas que se revelam movidas por interesses mesquinhos e próprios e que por tal, deixam de merecer confiança. A credibilidade não se decreta nem se conquista com proclamações ou insígnias. Constrói-se, edição após edição, com rigor, independência e responsabilidade.
O DIÁRIO aproxima-se assim da edição 50.000 com a consciência de que a longevidade, por si só, não constitui um salvo-conduto. A história honra-nos, mas não nos dispensa de merecer o futuro. Para tal, queremos continuar a ser um jornal livre, independente, plural e próximo; atento aos poderes, exigente perante as instituições, sensível aos problemas das pessoas e comprometido com os interesses colectivos da Madeira. Um jornal que não abdica de questionar, mesmo quando as perguntas incomodam, nem de dar voz a quem tantas vezes não a tem, apesar de os generosos palcos abundarem, sobretudo, para os de fora.
Não ignoramos que o futuro do jornalismo também depende da capacidade de inovar. Temos de conviver com as novas ferramentas, explorar as suas possibilidades e adaptar-nos aos hábitos dos leitores. Mas a tecnologia deve servir o jornalismo, nunca substituí-lo. A inteligência artificial vai ajudar-nos a encontrar padrões, comparar realidades e acrescentar contexto, como, aliás, temos explicado semanalmente. Não pode, porém, assumir o lugar do critério editorial, da verificação dos factos ou da responsabilidade humana por aquilo que publicamos.
A edição 50.000 será um marco. Mas o verdadeiro desafio não é chegar a 7 de Agosto de 2027. É partir daí para uma nova meta, sabendo o que queremos continuar a ser e que caminhos devemos percorrer para permanecermos indispensáveis numa comunidade que nos trata com elevada estima. Num tempo em que tantos disputam a atenção, queremos continuar a merecer confiança. Num mundo saturado de mensagens, queremos oferecer informação credível. E numa sociedade em que a dúvida é frequentemente explorada para confundir, queremos contribuir para uma compreensão da realidade assente em factos.
A verdade não pode esperar. Mas também não pode ser sacrificada à pressa. É precisamente entre estas duas exigências - a urgência de informar e o dever de verificar - que se define o jornalismo em que acreditamos e o DIÁRIO que queremos continuar a construir.