Hospitais que Curam… e Máquinas que Adoecem
Há algo de profundamente errado quando uma pessoa entra numa urgência hospitalar em estado agudo e, se precisar de comer alguma coisa, só encontra bolachas industriais, bolos embalados e bebidas açucaradas numa máquina automática.
Errado não por acaso, mas por opção.
Os hospitais são, por definição, lugares de cura. Ali combatem-se infeções, controlam-se glicemias, tratam-se anemias, avaliam-se doentes debilitados, idosos, grávidas, crianças. No entanto, no mesmo espaço onde médicos e enfermeiros alertam diariamente para os perigos do açúcar, dos ultraprocessados e da má alimentação, o único alimento disponível para quem espera horas numa urgência é… exatamente isso.
Não é só uma incoerência. É uma falha ética.
A alimentação não é um luxo. Nunca foi. Sempre fez parte do cuidado básico. Durante décadas, os hospitais tinham refeitórios funcionais, sopa simples, pão, fruta, leite. Nada de sofisticado. Comida de gente doente. Hoje, isso foi substituído por concessões privadas que privilegiam o lucro rápido, a durabilidade do produto e a ausência de logística. O critério deixou de ser clínico; passou a ser comercial.
O resultado é cruel: um doente em jejum, fragilizado, por vezes medicado, é empurrado para açúcar rápido e gordura barata, quando não devia comer aquilo em circunstância nenhuma. Quem tem diabetes, problemas gastrointestinais, anemia ou simplesmente náuseas fica sem alternativa. Come mal ou não come.
E depois admiram-se das hipoglicemias, das quebras de tensão, dos vómitos, da irritabilidade, do agravamento do estado geral.
Isto não é modernidade. É empobrecimento disfarçado de eficiência. É gestão sem alma.
Um hospital não precisa de virar restaurante. Precisa apenas de garantir o mínimo: sopa, fruta, pão simples, água, iogurte natural.
Coisas básicas, baratas, tradicionais, exatamente aquelas que sempre fizeram parte da recuperação de um doente.
Curar de um lado e vender lixo do outro não é neutralidade. É contradição.
E quem está vulnerável paga o preço.
Num país que se diz civilizado, ninguém devia sair de uma urgência mais fraco do que entrou… só porque teve fome.
António Rosa Santos