“O custo deste regime foi pago com sangue e vidas de muitos portugueses”
Uma manifestação pacífica em defesa da democracia na Venezuela decorreu na tarde deste sábado, na Praça do Povo, no Funchal. A iniciativa juntou cerca de uma de venezuelanos e luso-venezuelanos residentes na Região, num momento marcado por forte carga emocional e enquadrado pelos acontecimentos registados na véspera nas relações entre os Estados Unidos e a Venezuela, que voltaram a colocar o país sul-americano no centro da agenda internacional.
Com bandeiras amarelas, azuis e vermelhas a colorirem a praça, os participantes manifestaram apoio a uma transição pacífica e democrática do poder na Venezuela, na sequência da acção anunciada pelos Estados Unidos contra Nicolás Maduro, mantendo, no entanto, outros elementos do governo no poder. O protesto integrou-se numa mobilização global promovida pelo Comando com Venezuela, organização criada após as eleições de 28 de julho de 2024 e que tem representação em vários países, incluindo na Europa, América e até Médio Oriente.
Em declarações aos jornalistas, Lídia Albornoz, representante na Madeira de uma associação da oposição venezuelana liderada por Maria Corina Machado, sublinhou o carácter pacífico da iniciativa e a sua dimensão internacional. “Esta concentração está a ser organizada em todos os países do mundo. Hoje, logo de manhã, já recebemos imagens da Austrália, que foi o primeiro país a manifestar-se”, afirmou, acrescentando que o principal objectivo é claro. “Esta concentração tem só um propósito, a transição pacífica e democrática do governo da Venezuela”, acrescentou.
A responsável destacou, ainda, a preocupação com a segurança da população no terreno. “A nossa maior apreensão é o povo da Venezuela, as pessoas que estão lá. O nosso interesse profundo é que isto seja feito de forma pacífica. As pessoas têm de manter a calma”, apelou, lembrando que o país vive “um momento político bastante complicado”, marcado pela repressão, pela existência de presos políticos, incluindo jovens detidos por manifestações contra o regime, e pelas dificuldades de saída do país de cidadãos venezuelanos e estrangeiros, entre os quais portugueses.
Questionada sobre a reacção da comunidade madeirense e portuguesa na Venezuela, Lídia Albornoz descreveu um “misto de emoções”. “Houve um sentimento de liberdade, mas também uma apreensão estranha sobre o que vai acontecer a seguir. Ainda assim, acredito que muito em breve teremos notícias diferentes. Tenho fé absoluta que a Venezuela vai ser livre deste regime”, disse.
Sobre a intervenção norte-americana anunciada na sexta-feira, a Lidia Albornoz mostrou cautela. “Isto aconteceu ontem. Como é que hoje vamos profetizar o que vai acontecer amanhã? É muito cedo. Não havia muitas alternativas e agora temos de esperar, manter a calma e desejar que a liberdade chegue com paz”, afirmou, defendendo que o presidente eleito, Edmundo González, deve tomar posse. “Ele foi eleito e é ele que tem de assumir a presidência. Se fosse a Maria Corina a tomar posse seria antidemocrático”, sublinhou, relembrando que há 28 anos que não pode entrar no seu país.
Também presente na manifestação esteve Pedro de Mendonza, coordenador do Comando Mundo com Venezuela e que mantém contacto directo com Maria Corina Machado, que comparou o momento actual a outros processos históricos de transição. “Estamos no meio de um processo que está a decorrer. As pessoas perguntam quando e como vai acontecer, mas ninguém sabe. O importante é que continua vigente o mandato popular de 28 de julho de 2024”, afirmou.
Segundo Pedro de Mendonza, a saída de Maduro representa “o primeiro passo” para uma transição que deverá conduzir “à liberdade, à democracia, ao respeito pela dignidade humana e pelos direitos humanos”. O responsável reforçou que o processo deve ser liderado por venezuelanos. “Este processo tem sido conduzido pela liderança da Maria Corina Machado, pelo presidente eleito Edmundo González e pelos venezuelanos”, realçou.
Relativamente às declarações de Donald Trump, nomeadamente sobre os custos da operação serem pagos com petróleo venezuelano, Pedro de Mendonza foi crítico. “O custo maior foi pago durante anos com sangue e vidas, inclusive de muitos portugueses. A comunidade portuguesa na Venezuela também sofreu muito com este sistema criminoso”.