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"5 anos, 8 meses e 20 dias"

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E se fosse consigo? Com um filho? Com pai ou mãe? Pense. Pare. 

Ainda não passaram 24 horas desde que recuperou a liberdade. A voz de Carla oscila entre o alívio e o cansaço acumulado, mas as palavras saem com clareza. Pela primeira vez desde que deixou a prisão, a ex-presa política venezuelana, luso-descendente, filha de um pai natural do Porto e enteada de um madeirense, quebra o silêncio e relata quase seis anos de reclusão num sistema que descreve como arbitrário, desumano e profundamente injusto. Foi condenada a 21 anos de prisão por crimes que garante nunca ter cometido e que, afirma, nunca foram provados.

Este testemunho exclusivo ao DIÁRIO surge ainda sob o impacto de uma libertação inesperada. “Sabia que um dia ia acontecer, mas não fazia ideia de quando”, conta, numa ligação feita para o telemóvel da mãe porque ainda não houve tempo para comprar um telemóvel, diz, deixando escapar um sorriso breve, quase tímido, como quem ainda não se habituou à normalidade. 

Foi assim durante "5 anos, 8 meses e 20 dias", vivendo numa espera permanente, sem datas, sem certezas, sem horizonte. “Lá dentro contamos os dias e as horas. O tempo passa muito devagar. Às vezes parece que não passa”, responde quando lhe perguntamos como era o quotidiano. Dilacerante. Angustiante.

As acusações de conspiração com o estrangeiro e associação para delinquir sustentaram uma das penas mais pesadas previstas na lei venezuelana. No entanto, segundo relata, o próprio processo judicial desmonta essas acusações. “No expediente não havia nada que me envolvesse no caso. As pessoas que fizeram todas as perícias ao meu telefone testemunharam que não encontraram absolutamente nada que me vinculasse à operação”, assegura. Ainda assim, permaneceu presa. Fechada para o mundo. “O argumento era sempre o mesmo: continuo presa porque fui detida. É um círculo absurdo”, confessa, com uma serenidade que contrasta com a violência da situação.

Grande parte da reclusão foi cumprida no Helicoide, sede do SEBIN, a polícia política. Um prédio enorme que esconde atrocidades. Ali, os dias eram marcados pela ausência de actividades, longos períodos de silêncio, conversas breves entre companheiras de cela e muitas horas de sono forçado. “Dormíamos, falávamos um pouco, tentávamos passar o tempo como podíamos”, conta-nos naquele sotaque típico caraquenho. Apesar das duras condições, afirma não ter sofrido agressões físicas nesse período. 

A situação alterou-se drasticamente quando foi detida pelas FAES (Forças Especiais Venezuelanas). “Fui torturada. Usaram sacos para me asfixiar e bateram-me nas costas”, relata, sem elevar o tom, como quem descreve algo que ainda custa a processar. Foram momentos que marcaram profundamente a sua detenção e deixaram sequelas emocionais difíceis de apagar.

Em Setembro do último ano foi transferida para o INOF, onde os meses finais se tornaram ainda mais duros. As visitas passaram a ser apenas uma vez por mês, a ‘paqueteria’ — comida e produtos de higiene levados pela família — tornou-se mais restrita e o isolamento aumentou. “Esses meses foram mais difíceis do que no Helicoide”, admite. Ainda assim, procurou manter alguma rotina. 

Para manter a mente sã participou em actividades internas e passou a dar aulas de inglês como facilitadora. “Era uma forma de manter a cabeça ocupada e sentir que ainda podia ser útil”, diz, agora com uma inflexão mais luminosa na voz. Afinal, dormiu em casa. Sentia-se um pouco de alegria na voz. 

A libertação chegou de forma abrupta. Ao regressar a casa, o primeiro gesto foi simples e profundamente simbólico. “A primeira coisa que fiz? Foi comer. Precisava da comida da minha mãe, da comida da minha casa, de beber um refresco. São coisas básicas, mas que lá dentro não existem”, descreve as primeiras horas fora da cela, longe de uma prisão que, diz, “consome lentamente”. Seguiu-se o reencontro com a família e os amigos, num misto de alegria, choque e exaustão emocional.

Entre as pequenas pausas para suster a emoção, confessa que ainda não consegue compreender porque razão as mulheres detidas parecem ter mais dificuldade em recuperar a liberdade. “Não sei se é discriminação ou política. Não sei explicar. É um fenómeno”, afirma, acrescentando que as liberdades são escassas e que muitas mulheres permanecem presas durante anos sem qualquer avanço processual. Reconhece que a sua libertação quiçá teve também um factor de sorte. “Tenho muita sorte de estar livre depois de uma condenação de 21 anos”, diz, num desabafo que mistura gratidão e incredulidade apontando aquilo que considera uma das maiores perversões do sistema venezuelano. 

“Em qualquer Estado de direito é preciso provar para prender. Na Venezuela o pressuposto é inverso: é preciso provar que não se é culpado”, reafirmando que esta lógica permite manter pessoas presas durante anos, mesmo sem provas, transformando a prisão preventiva numa pena efectiva.

Admite e agradece que a diplomacia portuguesa poderá ter tido influência no desfecho do processo. Diplomatas de Portugal chegaram a visitá-la no Helicoide, numa excepção às regras do regime, permitindo-lhe actualizar a documentação e manter algum contacto institucional com o exterior.

Apesar de estar em liberdade há poucas horas, deixa claro que propõe-se acompanhar e apoiar os companheiros e companheiras que continuam detidos injustamente, bem como os familiares que permanecem sem respostas. “Tal como eles acompanharam a minha mãe, sinto que tenho um compromisso moral e emocional com todos”, afirma.

Carla acha que ganhou uma nova vida e que o ar que respira é outro e o vento que lhe toca o rosto tem uma brisa diferente. É o vento da liberdade.