Abstenção não é solução

Votar não é um gesto ingénuo nem um ato de fé cega. É, antes de tudo, um ato de responsabilidade sobretudo para quem se sente desiludido com a democracia. Se estás cansado de promessas vazias, de escândalos repetidos e de uma política que parece distante da vida real, o teu desencanto é legítimo. Mas a resposta a esse cansaço não é o silêncio. A abstenção não pune quem governa; apenas facilita que decidam por ti.

A democracia não é perfeita nunca foi. É lenta, conflituosa e muitas vezes frustrante. Ainda assim, continua a ser o espaço onde a tua voz tem peso, mesmo quando parece frágil. Cada voto é um lembrete de que o poder não pertence a uma elite abstrata, mas a cidadãos reais, com dúvidas, críticas e exigências. Votar não significa concordar com tudo o que existe. Significa escolher intervir em vez de desistir. Significa afirmar que, apesar das falhas, acreditas que o futuro deve ser disputado, não abandonado. Se estás desiludido, vota por isso mesmo. Vota para exigir mais, para marcar posição, para mostrar que a indiferença não te venceu. A democracia só se perde quando deixamos de a exercer.

A frustração e o desânimo que muitos sentem não nasceram do nada. São o reflexo de anos em que o sistema falhou em responder às necessidades reais das pessoas, em que as promessas ficaram aquém e a distância entre quem decide e quem vive as consequências pareceu aumentar. Reconhecer isso não é fraqueza — é o primeiro passo para a mudança.

Para que a história não se repita, ela mostra-nos que nenhum sistema se transforma a partir da desistência. A mudança começa quando a esperança, mesmo ferida, se recusa a desaparecer. Quando a crítica se transforma em vontade de fazer diferente. Quando o cansaço dá lugar à coragem de exigir mais e melhor. Esperança não é acreditar que tudo se resolverá sozinho.

Esperança é escolher participar, questionar, pressionar e renovar. É acreditar que o sistema pode e deve ser corrigido por aqueles que nele vivem e sofrem as suas falhas.

Cada gesto de envolvimento é uma afirmação de que o futuro não está fechado, que ainda há espaço para justiça, dignidade e progresso.

O desânimo paralisa; a esperança move. E é essa força coletiva, feita de vozes antes caladas, que pode abrir caminho a um sistema mais justo, mais próximo e mais humano. Mudar é possível. Mas só acontece quando decidimos não abdicar do nosso lugar na construção do amanhã.

Votar não é manter tudo como está. Votar é escolher quem tem coragem de romper com o marasmo, de enfrentar um sistema acomodado e de devolver sentido à política.

Se o que existe não chega, então é tempo de apostar em quem pode fazer diferente com ideias claras, compromisso real e vontade de mudar. A indiferença mantém o sistema igual; o voto consciente abre a porta à transformação.

Escolhe quem ousa. Escolhe quem faz falta. Porque a mudança começa quando alguém decide não aceitar o conformismo como destino.

A. J. Ferreira