DNOTICIAS.PT
Crónicas

Gronelândia e a derradeira prova (de União) Europeia

O presidente norte americano Donald Trump mantém o seu “admirável mundo” distópico, uma sociedade em que a única regra é a sua própria vontade e os limites como o próprio referiu são definidos pela sua moral (seja lá o que isso for). E em pouco tempo assistimos assim a jogadas que pareciam impensáveis dentro da lógica do xadrez global. Se até agora o seu registo no domínio do absurdo pouco nos calhava em sorte, a questão da Gronelândia não pode nem deve ser vista da mesma forma. Está em jogo de uma assentada só, o futuro da NATO como a conhecemos até aos dias de hoje mas também o da União Europeia e do verdadeiro significado de “união” que a mesma palavra encerra. Se os (até aqui) aliados vão assistindo atónitos às ameaças veladas chegará em breve o Dia G em que se perceberá com maior concretização até onde estará Trump disposto a ir e de que forma estaremos nós capazes de lhe fazer frente. Se em relação ao primeiro não restam grandes dúvidas pois a sua ambição não conhece coleira já em relação aos 27 Estados-Membros este será um momento absolutamente decisivo para se conseguir descortinar se nos assumiremos como vassalos ou se teremos a capacidade, a destreza mas também a coragem para fazermos valer a força do que nos une e os danos que poderemos infligir, sobretudo a nível económico a um País que parecemos não mais conhecer.

Parece ainda assim evidente, para nossa infelicidade, que o investimento em Segurança e Defesa terá forçosamente que crescer afetando outras áreas da nossa sociedade. Se o dinheiro não é infinito e se se aposta mais num lado, algum outro sentirá esse mesmo impacto. Numa lógica de alteração do paradigma geo-estratégico ficará então a dúvida se fará sentido partir para um exército europeu conjunto que se possa assumir como uma força beligerante capaz de afastar este tipo de provocações e se essa nova força se construirá dentro ou fora das paredes da NATO. É óbvio que se os EUA tomarem a região semi autónoma da Dinamarca pela força a Aliança Atlântica e tudo o que ela representa cairão por si, deixando no ar a dúvida do que fará sentido desenvolver a seguir. Mas nestes jogos de sombras e estratégias de alinhamento global importa também perceber se a UE como ela existe hoje em dia fará sentido, se os países que dela fazem parte estarão assim tão convergentes para um presente e um futuro comuns e se demonstrarão solidariedade institucional quando o cerco apertar. Está à vista de todos a excessiva burocracia e as dificuldades para ultrapassar certo tipo de impasses quando as decisões exigem votações unanimes e também nesse âmbito algo terá que mudar para que a União se torne mais prática, ágil e pragmática.

O que se torna claro é que não podemos voltar a cair no erro de nos colocarmos nas mãos seja de quem for, porque de um momento para o outro, mudam os Governos, alteram-se vontades e ficamos sem o prevermos nem estarmos preparados, sem capacidade de resposta ou reação. Assim é importante refletirmos sobre o que queremos para nós enquanto País e o que deve a UE representar deixando cair o parceiro preferencial e jogando em vários tabuleiros seja a Ocidente ou a Oriente, abrindo o leque de acordos conjunturais e procurando as melhores propostas dentro de um mundo globalizado que tem em diversas esferas muito mais para nos apresentar. Se já não existem dúvidas de que este é um tempo de mudança e de que já não existem relações eternas, 2026 abre-se assim num manto de indecisão e de dúvidas muito pouco positivas para a nossa economia excessivamente dependente do Turismo e dos turistas. Devemos contudo ter muito cuidado na forma como respondemos a um louco que terá o seu espaço de manobra muito encurtado caso perca as eleições legislativas deste ano até porque não é aconselhável confundir o mesmo com a Nação Americana com quem construímos laços e afinidades ao longo das ultimas gerações.

Será pois um enorme desafio que precisará de lideres fortes com capacidade de decisão impulsionados pela força da ética e dos princípios mas sem medo de assumir convicções. Talvez seja tempo de nos deixarmos de preocupar com temas absolutamente inúteis e que nos têm obstruído o desenvolvimento partindo para o que realmente interessa. A Gronelândia pode assim representar muito mais do que se pensa.

Notas soltas:

O que se passa com o antigo primeiro ministro José Sócrates ultrapassa todos os limites do razoável. Será que não há ninguém que meta mão no assunto e coloque ordem no caso? Ou estes subterfúgios, jogadas de bastidores e truques não são uma forma de obstrução à justiça? Que exemplo fica?

Num Mundo cada vez mais em alta velocidade parece brincadeira que não se tenha conseguido retirar dos boletins de voto os putativos candidatos que não conseguiram reunir todas as condições para que as suas candidaturas fossem aceites. Se formos à segunda volta o voto antecipado e os dos imigrantes continuará a ter não dois nomes mas sim os mesmos catorze. É só ridículo.