A vida e o entulho
O tempo avança, um dia atrás do outro, para o momento em que estarei a viver outra vez na casa onde cresci. E estou feliz por isso. Há anos que aquele lugar é mais memória do que realidade, faz parte do país mágico da infância, da melancolia e solidão da adolescência, existe tanto na minha imaginação como na curva do caminho, mais ou menos como sempre foi, com um jardim à frente e três lances de escada até chegar à porta do caminho. Por dentro, mudou pouco, está só mais vazia e fria que as casas foram feitas para ser habitadas, precisam de gente e de calor.
A ideia de estar de volta é boa, mas seria melhor não fosse o outro lado, o de arrumar em caixas os anos que passei fora. Há um mês que separo roupa, sapatos, papéis e livros e sinto que fiz pouco, está tudo quase como estava e há entulho dentro dos armários, onde papéis importantes estão guardados ao lado dos bilhetes do Concerto de Ano Novo de 2016, das contas da luz de 2019 e de um salvo-conduto para atravessar a cidade durante o confinamento da Covid-19. As contas foram para o lixo, o salvo-conduto é história e vai para o Laranjal.
Vai com os móveis, as roupas e os livros, que não sei quantos são, deixei de os contar há anos, mas lembro-me de como comecei a juntá-los numa prateleira do móvel da sala, não teria mais de 15 anos e não ocupavam metade do espaço. Foi uma Lina Marta muito vaidosa, essa, quando os alinhou uns a seguir aos outros, eram os primeiros livros de adulto, de literatura e assinei todos, com o nome, data e local. Nos anos seguintes acrescentei mais, lia o que podia comprar, o que me emprestavam, o que trazia da casa da tia Alice, onde os meus primos tinham muitos, alguns ainda por desembrulhar, estavam como tinham chegado do Círculo de Leitores.
Ninguém sabia explicar bem de onde vinha aquele gosto, nem eu. O meu pai era quase analfabeto; a minha mãe não tinha ido além da quarta classe de adultos e preferia ouvir rádio a ler as notícias no jornal. E eu passava horas a ler, às vezes no quintal, outras na sala das visitas, até me esquecia de lavar a loiça e de arrumar a cozinha depois do almoço. As minhas tias e a minha mãe diziam que podia ser perigoso, havia sempre a história de um primo ou sobrinho de alguém que tinha perdido o juízo por causa dos livros ou dos estudos. O que me parecia absurdo, os livros não me atormentavam, antes pelo contrário.
As histórias que lia lançavam uma luz sobre a minha vida, sobre a solidão dos meus 15 anos e ligavam-me ao mundo. A minha mãe não me deixava sair, nem podia sequer praticar um desporto, não era para meninas. Não havia matinés na discoteca aos sábados à tarde, nem café com amigas a menos que faltasse às aulas da tarde. Foi assim que fui ver o Regresso ao Futuro no Cine Casino, na sessão das 16h30. Ou faltava às aulas e não era bom ou esperava pelo meu irmão. Pelo meio havia tempo, tanto tempo que preenchia com os livros, os jornais velhos dos clientes do hotel Girassol e as revistas de papel lustroso da minha prima Ana.
As mesmas revistas que encontrei entre a outra papelada - a que deixei esquecida na casa do Laranjal - enquanto procurava espaço para os livros que juntei nos últimos 26 anos. Lá, do fundo da prateleira, a que fica escondida pelo sofá, saltaram para o presente as edições de 1984, 1985 e 1986, em inglês e francês, com anúncios de batons e cremes, dicas de moda e decoração, uma janela para o passado, para a Lina Marta adolescente que, aborrecida com mundo e depois de uma briga, se sentava, sozinha, naquela mesma sala, e ficava a olhar para as fotografias, a tentar imaginar-se dentro daquelas roupas, a viver numa casa daquelas. E era tão bom, tão reconfortante, tão diferente.