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Os sonhos na velhice

Tenho sonhos, tais como ver os campos de lavanda da Provença, que já cumpri, tenho outros quase inatingíveis, como ir a Tristão da Cunha ou Santa Helena. Tenho objetivos, como estar ao lado do meu filho e assistir aos seus voos, sem prender suas penas.

Mas, eu estou naquilo que chamam de “meia idade”, fiz recentemente 45 anos e, pela ordem natural da vida, ainda posso vivê-los, cumpri-los… e vêm as lágrimas aos meus olhos enquanto escrevo este texto ao som de “Exit Music for a film” dos Radiohead, não do meu quarto, mas do do meu filho, que canta agora “Let Down” do mesmo grupo. Porque se me humedecem os olhos? Porque ele ouve a mesma música que eu. A que eu ainda oiço, mas sobretudo a que ouvia com a sua idade. Há dias cantava Anna Lee dos Dreamtheatre e aí, sim, foi uma choradeira à Madalena que sou, não ouvia essa canção há anos, não é comum, não é conhecida e assim mesmo, ele cantava-a como eu, no final dos anos noventa e senti um tributo à minha adolescência, no auge do bullying de que fui vítima.

Peço pela graça de Deus e da vida, concretizar sonhos e objetivos. Tenho 45 anos.

Então e os nossos pais? Não vale a pena trocar aquele dente usado por mais de 70 anos, a trincar pêssegos, pêros rijos e canas de açúcar, para quê? Com esta idade? Um desperdício… Ter de ir de três em três semanas retocar a raiz do cabelo que teima em descobrir o tempo esbranquiçado da idade, vou desistir, que fique branco… viajar? Com esta idade? Ainda me acontece alguma coisa e será só para dar trabalho.

“Não queria morrer sem voltar a ter um BMW”, passados meses de burocracia, o BMW chegou, não um qualquer, o que eles merecem, pela vida que viveram, pelos dramas que enfrentaram, por me terem criado, “l’enfant terrible”, mas que os ama incondicionalmente.

“Mas, um carro desses para um homem com 75 anos???”

Os sonhos não podem ter idade, os objetivos não caducam, o vil metal fica.

Independentemente da idade, vivam os sonhos, os objetivos, porque os sonhos não têm idade e o amor muito menos.

Passaram as eleições e não fui eleita, fiquei serena, como que deslocada dali, num outro mundo em que aceitava porque pedi a Deus, não que fosse eleita, mas que me concedesse o que fosse melhor para mim. Estarei de regresso, assim Deus e a população quis, não vos decepcionarei, nem àqueles que se esfolam… por ver os outros concretizar os seus sonhos, com o fruto do seu trabalho.

Papá, ex-Don Juan com manias de bonito. Mamã, marrona, colecionadora de títulos até não poder mais, cujo o nome do meio é “insatisfação”, não te preocupes connosco, vive. Sê feliz. Aos dois, escrevo o que me custa dizer por conservadorismo agrobeto: amo-vos.