Luz num tempo de contradições
O Natal é apresentado, ano após ano, como um tempo de reencontro, de paz e de renovação moral. É um período carregado de simbolismo, onde se exaltam valores universais como a tolerância, a fraternidade e o respeito pelo outro. No entanto, a distância entre o discurso e a prática permanece evidente, revelando uma sociedade menos empática e cada vez mais marcada pela indiferença.
Na Madeira, as missas do Parto ocupam um lugar singular neste caminho simbólico que antecede o dia de Natal. São celebrações da Madeira e para a Madeira, profundamente enraizadas na identidade cultural regional. Celebradas de madrugada, distinguem-se pela cor, pela música e pelo convívio nos adros das igrejas, onde a tradição se vive em comunidade. São um espaço de encontro e pertença que resiste à pressa e ao individualismo do quotidiano.
Mas é precisamente neste contexto que se impõe uma reflexão crítica. A utilização recorrente das missas do parto e de outras iniciativas de cariz religioso por parte de políticos e governantes como palco de autopromoção é uma vaidade deslocada e inoportuna. A título individual, cada um é livre de viver a sua fé como entender. Contudo, ocupar lugares de destaque nos templos, fazer-se fotografar e transformar momentos de recolhimento e celebração comunitária em conteúdo para redes sociais não condiz com a postura que se espera de quem se diz cristão. A fé não é um adereço de campanha nem um instrumento de afirmação pessoal. Nesses lugares dianteiros das igrejas deveriam estar os mais pobres e os excluídos, os que passam fome e os que nem dinheiro têm para comprar uma lembrança aos filhos, nem atributos para andar nas redes sociais. Os da periferia, como sublinhou tantas vezes o Papa Francisco. Não os privilegiados da sociedade. Essa devia ser a mensagem primeira, assumida também pela Igreja Católica, que deve estender mais a mão ao pobre e renegado do que ao titular do cargo público.
O significado do Natal, aliás, não pode ficar confinado a uma confissão religiosa. É na convivência entre todos, católicos, islâmicos, ortodoxos, luteranos, crentes de outras religiões e não crentes, que a mensagem fundamental deve ser afirmada. O Natal deveria ser, ainda que simbolicamente, uma pausa na política agressiva, na guerrilha diária das palavras e na crispação permanente. Uma pausa que não apaga conflitos, mas que humaniza o debate.
Essa pausa, contudo, não pode servir para esconder o sofrimento dos excluídos. Pelo contrário, deve torná-lo mais visível. É a falta de empatia entre as pessoas. É a falta de respeito. É o egoísmo. As pessoas já nem comunicam verdadeiramente; limitam-se à troca de mensagens. E quando chega o Natal, a solidão ou a hipocrisia sentam-se à mesa entre perus e corações vazios. Nos hospitais e nos lares, multiplicam-se os doentes e idosos esquecidos, ausentes da narrativa festiva. É para esses que deve ser direccionada a nossa energia e prioridade.
2. O DIÁRIO noticiou, em manchete, na passada quarta-feira, a detecção de um caso de sarampo na Região, envolvendo uma criança de nacionalidade canadiana. Mais inquietante ainda é o dado revelado na mesma notícia: existem na Madeira 35 crianças com dois anos que não foram vacinadas contra uma doença altamente contagiosa e potencialmente grave, cuja prevenção é conhecida, eficaz e amplamente validada pela ciência há décadas. Não se trata de um pormenor estatístico; trata-se de um sinal de alarme social.
O sarampo é uma doença que, graças às campanhas de vacinação, foi praticamente erradicada em grande parte do mundo desenvolvido. O seu reaparecimento não resulta de falhas científicas nem de falta de meios, mas de decisões conscientes baseadas na ignorância atrevida de quem confunde opinião pessoal com evidência científica. A recusa em vacinar crianças não é um acto de liberdade individual inocente; é uma escolha que coloca em risco toda a comunidade, em particular os mais vulneráveis — bebés, doentes imunodeprimidos e pessoas que, por razões clínicas, não podem ser vacinadas.
Esta vaga de desconfiança em relação às vacinas não surge do nada. É alimentada por movimentos negacionistas que prosperam na desinformação, nas redes sociais e na erosão da autoridade do conhecimento científico. Não é alheia a este fenómeno a influência política de líderes que, de forma irresponsável, relativizam a ciência e legitimam a dúvida infundada. O caso do governo de Donald Trump é paradigmático: decisões e discursos que desafiam consensos científicos básicos, apesar de o próprio presidente ter sido vacinado contra a covid-19, revelando uma contradição que enfraquece a confiança pública e promove a confusão.
Quando a ciência passa a ser tratada como opinião e o conhecimento como ideologia, a sociedade entra num terreno perigoso. A saúde pública não pode estar sujeita a modas, a teorias conspirativas ou a cálculos políticos. As vacinas são uma das maiores conquistas da humanidade, responsáveis por salvar milhões de vidas e por impedir epidemias devastadoras. Recusá-las é um retrocesso civilizacional.
Impõe-se, por isso, que o bom senso prevaleça. Que pais, decisores políticos e a sociedade em geral compreendam que a protecção colectiva exige responsabilidade individual. As decisões em matéria de saúde pública devem ser tomadas com base na ciência, na evidência e no interesse comum, e não em crenças infundadas que podem fazer perigar sociedades inteiras. A tolerância à ignorância, neste domínio, tem um custo demasiado elevado para ser aceite como opção.