DNOTICIAS.PT
Artigos

Operação “Pólvora Seca”

Estava tudo estudado ao pormenor. A operação era complexa, dados os meios a empregar, a transportar, a alojar, a distância a percorrer, quiçá alguma hostilidade do local da Operação.

Houve portanto que ir buscar meios a outros departamentos, esgotar rubricas, reforçar orçamentos, transferir verbas, alugar transportes, para que nada faltasse.

E bem assim desvalorizar outras operações já em curso, talvez com prejuízos ou atrasos, arriscar perder campanhas já lançadas, tudo para que a Grande Operação não falhasse.

Acima de tudo, o Segredo. Tarefa difícil dado o volume de meios empregues, as várias agências e entidades empenhadas, de forma que aquela concentração de forças escapasse aos espiões, praga de todos os tempos, aos tagarelas, aos enxeridos, aos jornalistas.

Aqui levantou-se uma grande questão. Sendo que uma operação desta envergadura, merecia uma cobertura mediática a condizer. Se não, para que serviria? Nada existe antes de passar no pequeno ecrã, e o sucesso mede-se por tempo de antena.

Diz-se – e é dizer tudo – que alguns jornalistas fiáveis foram levados para a área de operações antes do lançamento desta. Foi um risco elevado, mas o prémio era compensador: comunicar, em tempo real, o desenrolar da acção.

Terminado o planeamento, passou-se à conduta. Embarcados os operacionais em aviões fretados (já que a Aviação não tinha meios suficientes) lá foram direitos à Ilha remota. Rodeada de mar por todos os lados (por definição) a Ilha transformava-se numa armadilha. Não havia fuga possível.

Desembarcados os diversos comandos, foram capturando os suspeitos e devassando os seus locais de trabalho e residências. É fácil imaginar os relatórios, curtos, sucintos, incisivos: “X” detido; “Y” neutralizado; casa “Z” revistada.

Parecia correr tudo bem, em termos operacionais, coisa de fazer inveja aos Seals americanos. Embarcados os prisioneiros e os despojos nos aviões, ei-los de regresso, com pompa e circunstância, como é devido.

Comunicados circunspectos deram a Boa Nova. Não houve festejos, mas antes uma onda de espanto que varreu o País. Como fora isto possível?

Mas, como se aprende nestas andanças, “até à lavagem dos cestos é tudo vindima”.

Decerto se lembram do famigerado “complô das batas brancas”, conspiração inventada por Estaline para fuzilar ou mandar para o Gulag dezenas ou centenas de médicos judeus.

Pois desta vez foi “conluio das togas pretas” que deitou por terra a luzidia operação. Soltos os prisioneiros, devolvidas as apreensões, surgiram explicações erráticas, desculpas improvisadas, críticas acerbas, um pouco de tudo. Tal como na Segunda Guerra do Iraque, quando não apareceram as famosas armas de destruição maciça.

Restava o Alto Comando.

Mas este, com a finura de uma larga experiência, só disse:

Por isso chamámos à operação “Pólvora Seca”!