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Crónicas

Pela Educação

1. Disco: “Never Mind the Bollocks, Here’s the Sex Pistols” é o álbum de estreia da banda punk inglesa Sex Pistols, lançado em 1977. É considerado um dos mais influentes da história do rock e frequentemente citado como um dos álbuns definitivos do punk. Foi gravado em apenas três semanas e foi produzido por Chris Thomas. Músicas curtas e directas, com letras que abordam temas que vão da política, ao sexo e à rebeldia. Um disco imprescindível em qualquer colecção.

2. Livro: “Chivukuvuku: Uma Biografia de Angola”, de José Eduardo Agualusa, conta a história de Abel Chivukuvuku, um dos políticos mais importantes de Angola. Um livro com o estilo envolvente e acessível que caracteriza Agualusa. Uma linguagem coloquial e informal, que aproxima o leitor da história e dos personagens.

3. Numa das últimas sessões do ano do Plenário da ALRAM, falou-se de educação. Diz que é onde Albuquerque está em casa. Para mim o Presidente está em casa em qualquer assunto. A sua verve e enorme conhecimento permite-lhe, quando interrogado, debitar tudo e mais alguma coisa, menos aquilo que lhe é perguntado. Assim foi outra vez. Mas o deslumbre é tanto, que nem a atitude crítica que se esperava da comunicação social foi exercida. Albuquerque é o sol que tudo ilumina. E ilumina tanto que até encandeia. Tudo e quase todos.

Albuquerque não jogou em casa e esteve muito longe de encantar. Todo contente com os resultados do PISA (Programme for International Student Assessment), onde quatro referências à Madeira nos deixava uns pontinhos à frente de outras regiões portuguesas, lá escolheu o tema onde achava que ia brilhar.

Para os que acham que sim, é lembrar-lhes a fábula do mocho e da raposa: “é dos vossos olhos”. Albuquerque titubeou, hesitou, perdeu-se e não acrescentou nada ao debate, a não ser as frases feitas que debita com assertividade e denodo.

Quando lhe perguntei, não soube dizer quais as cinco escolas da região que participaram no estudo, nem a tipologia dos 140 alunos. E para qualquer pessoa é fácil entender que isso pode fazer toda a diferença.

Depois, e quando confrontado com os valores dos resultados, confundiu percentagens com numerais. Andou aos papéis quando lhe disse que o numeral do resultado não era importante, porque só servia para remeter para uma tabela. E aí somos todos iguais, pois calhamos praticamente sempre no lugar onde calha o resto do país. Por exemplo, relativamente à Matemática, todas as regiões estão no Nível 3, que define o perfil como: “os alunos são capazes de conceber estratégias de solução, incluindo estratégias que exigem uma tomada de decisão sequencial ou de flexibilidade na compreensão de conceitos familiares. Neste nível, os alunos começam a utilizar competências de raciocínio computacional para desenvolver a sua estratégia de solução. Os alunos são capazes de resolver tarefas que exigem a realização de vários cálculos diferentes, mas de rotina, que não estão todos claramente definidos no enunciado do problema. Podem utilizar a visualização espacial como parte de uma estratégia de solução ou determinar como utilizar uma simulação para recolher dados adequados à tarefa. Os alunos deste nível são capazes de interpretar e utilizar representações baseadas em diferentes fontes de informação e de raciocinar diretamente a partir destas, incluindo a tomada de decisões condicionais utilizando uma tabela de dupla entrada. Normalmente, demonstram alguma capacidade para lidar com percentagens, frações e números decimais, e para trabalhar com relações proporcionais”. Se fosse só isso que conseguisse fazer a matemática, quando estudei, estava bem lixado. E era a disciplina onde tinha mais dificuldades.

Ora, em relação a isto o Presidente balbuciou o que o Secretário da tutela lhe foi bichanando. Está filmado e só não vai ver quem não quer ou quem se faz de distraído. Mas pronto, o debate serviu como uma luva a Albuquerque, pois estava na sua praia. Enfim.

4. Não tenho nada contra o uso de estudos para aferir de resultados. Só não acho que sejam tudo. Trato os resultados com cuidado e não embandeiro em arco, nem em relação ao bom, nem em relação ao mau. Valem o que valem.

O já referido PISA avalia apenas as habilidades de leitura, matemática e ciências, o que pode levar a uma visão distorcida do desempenho dos alunos. É realizado em diferentes contextos culturais e económicos, o que pode dificultar a comparação dos resultados entre regiões e/ou países. Finalmente, a atenção que recebe da comunicação social e dos políticos (o melhor exemplo é ter-se ido a correr debater a Educação) pode levar a uma pressão excessiva sobre alunos e professores para que se obtenham bons resultados.

É um instrumento de valor, mas é preciso analisar os seus resultados com calma e ponderação, porque estes também têm as suas limitações. Por exemplo, não “medem” habilidades como o pensamento crítico, a resolução de problemas e a criatividade, três pilares essenciais a qualquer sistema que se preze.

5. O nosso modelo de educação é muito fraco. Debita em vez de ensinar a aprender, trabalha muito pouco a compreensão, desresponsabiliza ao invés de responsabilizar. As taxas de retenção são baixas porque os critérios são muito alargados, quando deviam ser estreitos. Instalou-se o facilitismo da busca das estatísticas e é para isso que se trabalha.

O nosso modelo de educação formal devia ser um modelo de ensino que enfatizasse o desenvolvimento do pensamento crítico, da autonomia intelectual e da capacidade de raciocínio. Devia basear-se na ideia de que os indivíduos devem ser capazes de pensar por si e de tomar decisões informadas sobre a sua vida.

O que temos é de pouco. Um ligeiro assomo do que devia ser. E podíamos ser muito mais, porque autónomos. É importante que se enfatize o desenvolvimento do conhecimento numa ampla gama de áreas, incluindo as ciências, as humanidades, as artes e as ciências sociais. Sem desenvolvimento do pensamento crítico, a capacidade de analisar e avaliar informações de forma racional é diminuta e leva a uma iliteracia funcional gravíssima, bem como ao desinteresse por decisões políticas que a todos afectam. E, finalmente, a necessidade de desenvolver autonomia intelectual.

Não temos nada disto. Goste, ou não goste, quem decide sobre a educação dos nossos filhos. A adaptação do modelo educativo à contemporaneidade não tem nada a ver com o uso de tecnologias, muitas das vezes de modo desnecessário. A relevância da educação exige que esta se adapte constantemente ao mundo onde se insere.

Há preceitos que têm de ser tidos em conta. Uma base eminentemente prática, é também ela necessária. Urge desenvolver habilidades nos nossos alunos, como a resolução de problemas, o trabalho em equipa e a comunicação. Aumentar a inclusividade, incorporando mais perspectivas e vivências de diferentes grupos culturais e socioeconómicos. Sem aumentarmos a autonomia dos alunos, permitindo que eles escolham os seus cursos e atividades segundo os seus interesses e objetivos, o que temos é uma Escola fechada sobre si, esgotada e sem sentido.

A educação é um processo contínuo, que decorre ao longo de toda a vida. Procura preparar os indivíduos para o exercício pleno da cidadania, capacitando-os para o trabalho, para o lazer e para o relacionamento social.

No contexto actual, marcado por mudanças rápidas e constantes, a educação tem de assumir um papel ainda mais importante. Deve preparar os indivíduos para enfrentar os desafios do mundo moderno, que exigem cada vez mais criatividade, flexibilidade e capacidade de adaptação.

Uma das competências mais importantes que a educação deve desenvolver é a responsabilidade. A responsabilidade que não é mais do que a capacidade de assumir, por via da escolha, as próprias acções e de responder pelas suas consequências. Ela é essencial para o exercício da cidadania, para o sucesso profissional e para o bem-estar pessoal.

Isso consegue-se desenvolvendo a capacidade de pensar criticamente e de tomar decisões informadas, a capacidade de gerir o tempo e as tarefas, a capacidade de resolver problemas e conflitos, a capacidade de trabalhar em grupo,

a capacidade de comunicar eficazmente, a capacidade de comprometimento com valores e princípios.

A nossa educação faz isso? Não.

6. Sei que é fim de ano e que devia estar a fazer balanços, mas como estes não resolvem nada e as decisões de fim de ano só servem para não ser cumpridas, ficam os meus votos de um 2024 em cheio para todos.

Aos detratores desejo o mesmo que me desejarem.